quarta-feira, 7 de novembro de 2012
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Outono
Ouço sem ver, e assim, entre o arvoredo,
Ouço sem ver, e assim, entre o arvoredo,
Vejo ninfas e faunos entremear
As árvores que fazem sombra ou medo
E os ramos que sussurram de eu olhar.
Mas que foi que passou? Ninguém o sabe.
Desperto, e ouço bater o coração -
Aquele coração em que não cabe
O que fica da perda da ilusão.
Eu quem sou, que não sou meu coração?
Fernando Pessoa
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Maré alta
A minha Mãe adorava trabalhos manuais e até aos 80 sempre criou mil e uma maneiras de se entreter com as mãos. As suas eram longas com os dedos bonitos, unhas bem cuidadas. Tinha uma vista fantastica, que eu herdei, conseguia coser e ler sem óculos como eu. Tinha miopia, que eu já não tenho. Pura e simplesmente não uso óculos, o que na minha idade é raro e um privilégio.
A minha mãe fazia caixinhas para tudo, até para nos dar algum dinheiro no Natal quando não tinha saúde para ir comprar prendas. Os cartões eram uma preciosidade, com bonecos recortados e colados em cartolina presos por um fio. Não desenhava, mas a sua letra era linda.
Adorava mostrar-me as suas preciosidades quando eu ia a Lisboa, bordados, crochets e até uma casa da Barbie que fez para os netos e bisnetos, mas que acabava por ser de todos. A minha Mãe poderia ter tido um atelier e ensinado muitas gente nova a fazer coisas bonitas. Felizmente alguns netos herdaram estas qualidades.
Também adoro trabalhar com as mãos - estou a fazer um pulover para o meu neto mais velho que cresce mais depressa do que devia, faz amanhã já 9 anos. Já não sei quantos pulovers fiz para eles...
Tudo isto para dizer que hoje alem de pintar um quadro que ainda não acabei, estive a fazer experiências com algumas fotos que tirei ontem. O resultado é artístico, diria mesmo que parecem pinturas algo surrealistas. Aqui estão.
O sol entra-me pela sala adentro com a suavidade outonal e calor quase de verão. Daqui a nada vou buscar os meninos ao colégio e já sei que querem lanchar no café, onde cobiçam aquilo que o outro pediu e querem provar de tudo um pouco. Eu também era assim.)
Vida calma....em maré alta. Laos Deo!
domingo, 4 de novembro de 2012
Mar adentro
Hoje a Foz estava tão grandiosa, tão bela, em dia de sol com nuvens, que se fosse mais nova, até era capaz de tomar um banho só para sentir em pleno a maravilha que é o mar.
Não há nada que me apaixone tanto e me emocione desta maneira. Aqui no Norte, o mar é imenso, é belo, é o perto e o longe. E depois, não é só a água, é a areia, os seixos, os limos, os mexilhões, as lapas, as cascas de carangueijo, os búzios, tudo a brilhar ao sol. Respira-se o sal e o cheiro da maresia.
Havia pouca gente, talvez porque estava fresco, mas eu ia tão bem agasalhada que até tive calor.
Equipada com a minha máquina - que seria de mim sem ela? - era a mulher mais feliz da vida.
É dificil descrever o que sinto quando saio com a minha filha. Os silêncios, os sorrisos, a cumplicidade são totais.
Respeito as suas saídas sozinha, nem sequer pergunto onde vai, sei que volta com um sorriso e sempre disposta a fazer-me aquele recado ou favor. Muitas vezes estamos silenciosas as duas, passamos horas juntas em que cada uma sabe de si, não precisamos de comunicar e adoramos a privacidade.
Ir à Foz foi sempre um dos nossos passeios favoritos.
Já o fizémos vezes sem conta, mas é sempre a primeira vez, como canta o Rui Veloso.
sábado, 3 de novembro de 2012
Safari outonal
O sol começou a brilhar e as gotinhas que repousavam nas folhas começaram a cintilar. Era a hora de ir em safari, não para ver animais ferozes, mas plantas magníficas que já amo como se fossem minhas.
Perdi-me no jardim da FCUP, aqui mesmo ao lado do Botânico, onde só se ouviam os pássaros no seu chilrear constante, dir-se-ia que conhecem Vivaldi e o entoam propositadamente para mim.
Estar assim em uníssono com a beleza faz-me acreditar. E cito Alberto Caeiro, pois com ele me identifico.
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
O Guardador de Rebanhos
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Mens sana ...corpore sano
O meu Latim já não é o que era....sempre fui boa aluna nesta disciplina, que achava um autêntico puzzle super-aliciante. Tive um 18 no 7º ano com enorme facilidade, tal era o meu amor pela história dos Romanos e a fantástica professora que tive no antigo Liceu M. Amália.
Agora já erro muitas vezes nas declinações, mas continuo a gostar de citações latinas. Só não gosto do lema do Benfica : Et pluribus Unum, bah!:)

Hoje fui fazer dois exames médicos importantes, e, embora de rotina, estava nervosa pois ultimamente tenho ouvido notícias terríveis.
Foi-me dito por profissionais competentes e muito acessíveis que não sofro de nada inquietante, o que, na minha idade, é de fazer brindes com champagne que não tenho. Depois de a minha empregada me andar a agoirar com a sua tendência para a desgraça, pude vir para casa descansada - sem antes passar pela Leitaria da Quinta do Paço, onde se vendem os melhores chantillis que jamais vi, éclairs recheados e bolas de Berlim do outro mundo.
Até tirei uma foto para as publicitar no FB.
A loja foi toda remodelada há dois anos e agora está linda e apetecível. Adoro o ambiente das lojas daquela zona do Porto, cercadas de alfarrabistas por todo o lado. Tenho o autocarro para casa mesmo à porta na Praça dos Leões.
Aproveitei para convidar o meu filho mais novo para o jantar. Farei um rosbife à maneira, vemos o jogo do FCP e ele ainda pode provar a geleia de marmelo, que fiz ontem para comermos com castanhas.
A vida é bela!
Agora já erro muitas vezes nas declinações, mas continuo a gostar de citações latinas. Só não gosto do lema do Benfica : Et pluribus Unum, bah!:)

Hoje fui fazer dois exames médicos importantes, e, embora de rotina, estava nervosa pois ultimamente tenho ouvido notícias terríveis.
Foi-me dito por profissionais competentes e muito acessíveis que não sofro de nada inquietante, o que, na minha idade, é de fazer brindes com champagne que não tenho. Depois de a minha empregada me andar a agoirar com a sua tendência para a desgraça, pude vir para casa descansada - sem antes passar pela Leitaria da Quinta do Paço, onde se vendem os melhores chantillis que jamais vi, éclairs recheados e bolas de Berlim do outro mundo.
Até tirei uma foto para as publicitar no FB.
A loja foi toda remodelada há dois anos e agora está linda e apetecível. Adoro o ambiente das lojas daquela zona do Porto, cercadas de alfarrabistas por todo o lado. Tenho o autocarro para casa mesmo à porta na Praça dos Leões.Aproveitei para convidar o meu filho mais novo para o jantar. Farei um rosbife à maneira, vemos o jogo do FCP e ele ainda pode provar a geleia de marmelo, que fiz ontem para comermos com castanhas.
A vida é bela!
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
5 da manhã no campo alegre
Deitei-me as 3 da manhã e acordei há meia hora, como se tivesse dormido a noite inteira. Uma espertina total...
O silêncio é absoluto...um ou outro carro a descer a rua, de resto nem um latido, nem assobios, nem gaivotas, nem máquinas, nada...
Aconteceu-me várias vezes, quando ainda trabalhava nas escola, acordar a meio da noite e trabalhar, preparar uma aula, fazer uma pesquisa na net, escrever algo para os meus manuais...só conseguia adormecer depois, já perto da hora de me levantar e ir para as aulas.
Lembro-me de que, na praia da Luz, de noite, também se consegue ouvir o silêncio .
Passei muitas noites lá sem pregar olho, numa inquietação quase crónica, que se seguia a um dia de praia intensa. Se o mar estava calmo, só se ouvia uma doce melopeia sincopada, mas por vezes, nem isso. Saía para o jardim e via a manhã a nascer por detrás da fortaleza, sem coragem para me vestir e ir para a praia. Estava frio, mas não me fazia mossa.
Aqui sinto-me bem, não tenho receio do escuro, nem da solidão, parece que me encontro ainda melhor neste sossego nocturno. Só se vêem as árvores do botânico.
A minha filha dorme o sono dos anjos, felizmente.
Parece que a vida parou...mas o relógio continua a andar e daqui a nada é manhã.
O silêncio é absoluto...um ou outro carro a descer a rua, de resto nem um latido, nem assobios, nem gaivotas, nem máquinas, nada...
Aconteceu-me várias vezes, quando ainda trabalhava nas escola, acordar a meio da noite e trabalhar, preparar uma aula, fazer uma pesquisa na net, escrever algo para os meus manuais...só conseguia adormecer depois, já perto da hora de me levantar e ir para as aulas.
Lembro-me de que, na praia da Luz, de noite, também se consegue ouvir o silêncio .
Passei muitas noites lá sem pregar olho, numa inquietação quase crónica, que se seguia a um dia de praia intensa. Se o mar estava calmo, só se ouvia uma doce melopeia sincopada, mas por vezes, nem isso. Saía para o jardim e via a manhã a nascer por detrás da fortaleza, sem coragem para me vestir e ir para a praia. Estava frio, mas não me fazia mossa.
A minha filha dorme o sono dos anjos, felizmente.
Parece que a vida parou...mas o relógio continua a andar e daqui a nada é manhã.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
O parque
O Porto é conhecido pela sua cinzentude de granito, ruas estreitinhas, pedra escura, envolta em nevoeiro, chuvoso. Tudo isto é belo, romântico...mas cliché.

O Porto tem lugares que são a antítese de tudo isto: céu luminoso, sol radiante, árvores lindíssimas, embora novas, relvados verdes -iguais aos lawns em Inglaterra - a perder de vista, lagos cheios de patos, cisnes, gaivotas, peixes, sem qualquer protecção à volta, tudo integrado na paisagem, a lembrar-me o Jardim Inglês em Munique, que parecia não ter fim.
Hoje passei duas horas no parque da cidade com os meus netos e nora. Momentos magníficos...o meu irmão tem razão, ainda há Paz e Beleza mesmo no século XXI.
As fotos dizem tudo...venham ao Porto! Esta cidade é um poema e pode-se ser muito feliz aqui.
Hoje passei duas horas no parque da cidade com os meus netos e nora. Momentos magníficos...o meu irmão tem razão, ainda há Paz e Beleza mesmo no século XXI.
As fotos dizem tudo...venham ao Porto! Esta cidade é um poema e pode-se ser muito feliz aqui.
domingo, 28 de outubro de 2012
Mozart ao Domingo
Oiço o concerto nº 23. Piano. Um dos meus preferidos.
Volto à minha adolescência em Lisboa, àquela casa enorme, lindíssima, cheia de sol aos
Domingos, aos almoços depois da Missa nos Jerónimos, ao fim do almoço na
varanda, repleta de buganvília vermelha, a dar para o jardim, aos passeios na relva, às brincadeiras de criança, ao Mata, ao badmington, às ameixieiras em flor, a serenidade e a
paz em família.Um mundo que acabou. Um mundo que só se vê nas séries da TV. Um mundo que só restará na nossa memória, enquanto existirmos.
Uma nostalgia profunda neste Adágio, talvez um dos mais pungentes de Mozart, os sopros em sintonia perfeita com o piano, interpretado hoje por um rapaz novo, um dos galardoados do Prémio Rubinstein.
Este Adágio era ouvido religiosamente pelo meu Pai, talvez com os olhos fechados...como se deve ouvir música.
Salta subitamente o 3º andamento, revolto como a cabeleira do compositor no filme Amadeus, só faltam as suas gargalhadas zombeteiras para eu o ver ao vivo aqui no ecran. Os clarinetes, fagotes, flautas alegram-se ao som das teclas , que parecem querer dançar um foxtrot, cavalgando e terminando em trilos dextros. A orquestra anima-se toda, rejubilando por terem ultrapassado a nostalgia e o medo.
Manhã de sol quente e vento....outubro na despedida....mozartiana sem dúvida...sozinha em casa, gozo a paz deste domingo sem missa, sem mais ninguém, mas religiosa na memória da música.
Ofereço-vos aqui o grande SOKOLOV a tocar o concerto 23 completo. Bem hajas Mozart!
Um bom Domingo para todos.
Mozart
Oiço o concerto nº 23. Um dos meus preferidos.
Lembra-me a minha adolescência naquela casa enorme, lindíssima, cheia de sol aos Domingos, os almoços depois da Missa nos Jerónimos, o fim do almoço na varanda a dar para o jardim, os passeios na relva, as brincadeiras em crainça, o Mata, o badmington, as ameixieiras em flor, a serenidade e a paz em família. Uma nostalgia profunda neste adagio, talvez um dos mais pungentes de Mozart, os sopros em hoia perfeita com o piano, interpretado por uma rapaz novo, um dos galardoados do Prémio Rubinstein.
Salta depois o 3º andamento, revolto como a cabeleira do compositor no filme Amadeus, faltam as suas gargalhadas zombeteiras para eu o ver aqui no ecran. Os clarinetes, fagotes, flautas alegram-se ao som das teclas , que parecem querer dançar um foxtrot, cavalgando e terminando em trilos dextros. A orquestra anima-se toda ela, rejubilando por ter ultrapassado a nostalgia e o medo.
Manhã de sol e vento....mozartiana sem dúvida...
Fica aqui o grande SOKOLOV....
Seize the Day!
Lembra-me a minha adolescência naquela casa enorme, lindíssima, cheia de sol aos Domingos, os almoços depois da Missa nos Jerónimos, o fim do almoço na varanda a dar para o jardim, os passeios na relva, as brincadeiras em crainça, o Mata, o badmington, as ameixieiras em flor, a serenidade e a paz em família. Uma nostalgia profunda neste adagio, talvez um dos mais pungentes de Mozart, os sopros em hoia perfeita com o piano, interpretado por uma rapaz novo, um dos galardoados do Prémio Rubinstein.
Salta depois o 3º andamento, revolto como a cabeleira do compositor no filme Amadeus, faltam as suas gargalhadas zombeteiras para eu o ver aqui no ecran. Os clarinetes, fagotes, flautas alegram-se ao som das teclas , que parecem querer dançar um foxtrot, cavalgando e terminando em trilos dextros. A orquestra anima-se toda ela, rejubilando por ter ultrapassado a nostalgia e o medo.
Manhã de sol e vento....mozartiana sem dúvida...
Fica aqui o grande SOKOLOV....
Seize the Day!
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