Mostrar mensagens com a etiqueta mansão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta mansão. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 19 de julho de 2011

Há coisas muito engraçadas



De vez em quando, quer-se tirar uma fotografia boa e sai uma versão completamente diferente, porque os parâmetros e condições não estão bem regulados.Podemos apagar tudo e mandar para a lixeira ou aproveitá-la com imaginação.

Há dias esteve um luar bem bonito aqui na Luz, apesar de a Lua já estar reduzida a quase metade, e tentei repetir a proeza que tinha conseguido ano passado, em que as fotos da Lua cheia ficaram belas. Desta feita só saiu uma fotografia bizarra, com contornos góticos, a lembrar os filmes de terror , obras de Poe ou pinturas de Goya.

Ponho-a aqui com um poema que todos conhecemos de Soares de Passos:

Noivado do Sepúlcro

Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

...Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D'entre os sepulcros a cabeça ergueu.
.
Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.

Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

"Mulher formosa, que adorei na vida,
E que na tumba não cessei d'amar,
Por que atraiçoas, desleal, mentida,
O amor eterno que te ouvi jurar?"

"Amor! engano que na campa finda,
Que a morte despe da ilusão falaz:
Quem d'entre os vivos se lembrará ainda
Do pobre morto que na terra jaz?"

"Abandonado neste chão repousa
Há já três dias, e não vens aqui...
Ai, quão pesada me tem sido a lousa
Sobre este peito que bateu por ti!"

"Ai, quão pesada me tem sido!" e em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.

"Talvez que rindo dos protestos nossos,
Gozes com outro d'infernal prazer;
E o olvido cobrirá meus ossos
Na fria terra sem vingança ter!"

- "Oh nunca, nunca!" de saudade infinda
Responde um eco suspirando além...
- “Oh nunca, nunca!” repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.

Cobrem-lhe as formas divinas, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela c'roa de virgínias rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.

"Não, não perdeste meu amor jurado:
Vês este peito? reina a morte aqui...
É já sem forças, ai de mim, gelado,
Mas inda pulsa com amor por ti."

"Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
Da sepultura, sucumbindo à dor:
Deixei a vida... que importava o mundo,
O mundo em trevas sem a luz do amor?"

"Saudosa ao longe vês no céu a lua?"
- "Oh vejo sim... recordação fatal!"
- "Foi à luz dela que jurei ser tua
Durante a vida, e na mansão final."

"Oh vem! se nunca te cingi ao peito,
Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
Quero o repouso de teu frio leito,
Quero-te unido para sempre a mim!"

E ao som dos pios do cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrado, d'infeliz amor.

Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.

Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.

terça-feira, 22 de março de 2011

Downton Abbey

Seguindo o conselho do meu filho mais velho, que não tem TV em casa por princípio, mas gosta cada vez mais de ver séries inglesas e americanas, daquelas que víamos dantes na RTP 2, Brideshead Revisited, Upstairs, Downstairs ( A Família Bellamy), Pride and Prejudice, americanas como Parenthood, Desperate Housewives ou Damages, resolvi fazer o download duma série de 2010,chamada Downton Abbey.
A princípio, pareceu-me um pouco datada - como poderia não sê-lo se se passa em 1912? - mas a pouco e pouco, seduziu-me completamente, a tal ponto, que hoje vi três episódios numa tranquila tarde passada em casa, com o sol a entrar pela janela da varanda e lendo O Livro do Desassossego num intervalo lá fora ao sol.
Sou feliz - porque não confessá-lo?

A série é daquelas em que tudo parece ter congelado num tempo, o das grandes mansões vitorianas, em que desde o nobre master of the house até à mais humilde criada todos têm um papel na história, que começa com o naufrágio do Titanic. O decor, a reconstrução da época, os modos, as falas, o espaço rural e urbano é tudo uma esmero do princípio ao fim. Os sentimentos são expressos dum modo indirecto, pelos olhares, gestos, música, luzes, movimentos da câmara. Perfeito.

As nossas telenovelas têm muito a aprender com estas produções inglesas e americanas. Já estão melhor, tenho visto de quando em vez uma ou outra novela, mas os actores continuam a arrastar as falas, sempre à espera do teleponto, não há ritmo, as cenas repetem-se até à exaustão e a música, salvo raras excepções, é detestável.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Nostalgia pós-natalícia

Hoje é segunda feira, o Natal acabou, está a cair aquela chuva miudinha tão típica aqui do Porto e que permite estes verdes perpétuos à volta da minha casa. Hoje vi duas aves canoras esvoaçando entre as árvores da Casa das Artes e pensei que o inverno aqui é muito menos rigoroso do que noutros países que conhecemos, mas às vezes é triste e monótono.
A minha empregada foi a Inglaterra passar o Natal com o irmão que vive lá e veio hoje, dizendo que tinha detestado a viagem e que Portugal é mil vezes melhor....sendo de Luanda, o frio deve tê-la apavorado e a confusão dos aeroportos não lhe terá sido fácil.

Há meses começaram a pintar e restaurar a casa dos Andersen. Regozijei-me com a iniciativa, e penso que escrevi aqui que tinha sido uma notícia excelente. Afinal, retiro o que disse. Pintaram a casa dum vermelho mais parecido com as fábricas do sec XIX do que com as belas mansões da Foz ou aqui do Campo Alegre. Está triste como a morte. Como as árvores estão despidas, vejo-a melhor daqui da minha varanda e sinto um nó na garganta ao olhar para as paredes vermelhas escuras, as janelas, que fotografei há tempos e que eram brancas e simétricas, tudo está vermelho, sem fazer contraste com o verde. Perdeu a luminosidade, as chaminés fazem lembrar os dias da Revolução Industrial e os operários das obras os trabalhadores de antigamente.
Que transformem as fábricas em museus, como fizeram com a Central de Electricidade em Lisboa, edifício sui generis adaptado, que resultou num local interessante e digno de visita, compreende-se. mas que se pintem casas senhoriais lindissimas e luminosas desta cor escura não lembra ao diabo. Não acredito que Sophia aprovasse esta decisão....penso ( posso estar errada) que a casa que Ruben A descreve no seu livro era branca, com telhado alaranjado. Nada disso acontece agora.
Ainda não fui lá dentro, pois está fechado ao público, mas até tenho medo: espero que não tenham modificado a traça da casa, o seu enorme átrio e a balaustrada para a modernizarem, tornarem mais futurista ou coisa que o valha...
Estas fotos foram tiradas por mim e dão-me vontade de chorar...desculpem, estamos no pós natal e sinto aquela nostalgia do antigamente.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Jardim Botânico - Porto







O Jardim Botânico do Porto, hoje parte integrante da Faculdade de Ciências, foi em tempos uma quinta senhorial, pertencente à família Andresen, que gerou dois vultos da nossa literatura: Sophia Mello Breyner e Ruben A.
Ambos se referem a este jardim e esta mansão nas suas obras. Sophia inventou um conto para crianças, A Floresta, inspirando-se num velho carvalho, onde viviam anões mágicos.

Era uma vez uma quinta toda cercada de muros.
Tinha arvoredos maravilhosos e antigos, lagos, fontes, jardins pomares, bosques, campos, e um grande parque seguido por um pinhal que avançava quase até ao mar.
A quinta ficava nos arredores de uma cidade. O seu pesado portão era de ferro forjado pintado de verde. Quem entrava via logo uma casa grande rodeada de tílias altíssimas cujas folhas, de um lado verdes e de outro lado quase brancas, palpitavam na brisa.
- A Floresta

Ruben A. dedica quase todo o primeiro volume de "O Mundo à minha procura", a sua autobiografia, à descrição da infância e adolescência passadas nessa quinta sem fim, com árvores altas e flores magníficas. O átrio da casa era o local escolhido para uma gigantesca árvore de Natal, que os Andresen, nórdicos de origem, não dispensavam.

"Voltar ao Campo Alegre foi para mim qualquer coisa de enorme na vida, mais importante do que ir à Lua, ou andar em órbita à volta da Terra."

"O átrio do Campo Alegre é célebre, coisa de embasbacar. É um perfeito quadrado erguendo-se livre até vinte metros ou mais, tendo do primeiro andar (a casa só conta o piso térreo e o primeiro andar, não mencionando as caves) uma enorme varanda quadrada que se debruça sobre o átrio e que serve todos os quartos na parte virada à luz. Lá no cimo, no cocuruto, estava uma forma de clarabóia, com varandim circular, de onde nós no Carnaval atirávamos serpentinas à cabeça de quem obrigatoriamente passava lá por baixo. No entanto, a grandeza do átrio mostrava-se, além da sua maravilhosa perspectiva de simetria, no andar nobre da casa que era o andar da entrada, ultrapassada a curta escadaria exterior. O átrio do Campo Alegre apresentava o mercado da casa, o lugar de reunião, a ágora grega onde as pessoas vinham falar e discutiam os assuntos mais variados, onde cada um que saísse dos seus quartos estava imediatamente debaixo da alçada visual de um estranho ou de um desconhecido. Era a praça pública íntima dos familiares, lugar de suspiros ao chegar a casa e onde se dizia adeus pelo eco daqueles trinta metros acima que fazia ressoar a voz humana com um sentido correcto de simetria. As condições acústicas surgiam musicais. O mínimo som denunciava a presença de alguém, a mais íntima declaração amorosa estendia-se em pequenos timbres pelas colunas que suportavam a álea de quartos da casa.» O Mundo à Minha Procura I.






Moro em fente do Jardim Botânico e não há dia em que não passe em frente ao portão e não pense nessas duas figuras que já partiram. Entro por vezes e vou directa ao meu local preferido: o lago de nenúfares, que reflecte toda a vegetação à volta, nos vários cambiantes e estações do ano. Mas também já estive lá em cima no cocruto, num Domingo em que o Sr. Guarda nos levou a ver o jardim do alto da mansão. Pura simpatia.

A minha paixão pela fotografia já me levou a tirar mais de cem fotos deste jardim....
Hoje resolvi pintá-lo. Não pensei em Monet, mas no lago que vejo quase todos os dias.
Foi isto que pintei:



Guache e acrílico sobre papel