Vamos com prazer para a praia, mesmo que seja em Março.
Hoje nem era preciso casaco, tive de o meter no saco, dobrei as calças até ao joelho, descalcei as botas, arregacei as mangas e , mesmo assim, estava calor intenso cá fora na varanda do meu querido café dos Ingleses. Com receio do sol todosos comensais se tinham abrigado debaixo dos guarda sois ou no café, onde as janelas panorâmicas deixavam avistar um mar imenso, com ondas altas, desdobrando-se umas sobre as outras e vindo morrer em branca espuma aos nossos pés.
Gosto daquela varanda porque tenho sempre a sensação de estar num navio, sós se vê uma nesga de areia e as rochas. A praia maior fica do outro lado. Hoje já havia alguns afoitos a molhar os pés ou mesmo um mergulho rápido. Quase não havia gaivotas, deviam estar abrigadas do calor em qualquer outro lado mais fresco. Cheirava a maresia quando cheguei, o que nem sempre acontece. É um cheiro a algas que me inebria. Li mais umas páginas de "pequenas Memórias" de Saramago,um livrinho muito interessante, que me está a agradar imenso pela ironia e facilidade com que descreve as suas pequenas façanhas da infância e adolescência.
Hoje ouvi Vivaldi, não muito alto para não abafar o barulho das ondas, que era tronitruante. Este compositor é sempre surpreendente para mim, agora que oiço o meu neto tocá-lo duma forma tão expressiva. Os concertos para flauta, oboé ou violino são lindíssimos e transmitem uma alegria íntima e serena.
fica aqui um excerto de La Notte, concerto para flauta dos que mais gosto. O meu filho tocava-o em tempos...que saudades.
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sábado, 10 de março de 2012
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
A lareira e Saint Saens
Ontem resolvi acender a lareira só para mim. Sentia-me bem em casa, já eram umas dez horas, não me apetecia ver nada na TV - estou cansada dos programas de informação que entrevistam sempre as mesmas pessoas , salvo raras excepções, aliadas ao governo ou ressabiadas por não terem sido convidadas para nenhum poleiro ou ainda duma oposição que se limita a repetir cassetes com mais 40 anos...novelas, confesso que não gosto de nenhuma, parece que retrogredimos 60 anos, tal a discrepância entre o que se vê e aquilo que acontece na real, gente violenta, que só pensa em vinganças, em assassínios camuflados dos seus familiares ( nem os Bórgias eram tão maus:)), maledicência, caricaturas mal amanhadas que não dão nenhuma vontade de rir, situações ridículas que me fazem corar de vergonha por ser portuguesa, nomes sonantes de famosos ( famosos em quê e porquê???), música pimba a granel, não há um programa que preste.
O que me salva às vezes é o MEZZO, sobretudo à tarde, e o Fox Crime que apresenta séries de casos judiciais com algum interesse e bem feitos. O resto é lixo puro e só quem não quer é que não se dedica a coisas mais interessantes.
Ontem acendi a lareira com facilidade pois os tarolos já estavam bem secos, as pinhas também e ainda tinha as acendalhas a ajudar. Rapidamente entrei naquele estado de nirvana, em que a visão das chamas na sua coreografia avermelhada e o ruído do crepitar e estalar são suficientes para esquecermos todos os males do mundo e acreditarmos numa felicidade à mão de semear.
A música também é um bálsamo. Desta vez foram dois concertos de Saint-Saens, um compositor francês menos popular, talvez do que Beethoven ou Mozart, mas que é dum vigor e brilhantismo impares. Qualquer pianista que toque bem Saint-Saens encontrou a receita para o sucesso porque é música empolgante tocada ao vivo. Gosto dos cinco concertos para piano e ainda dos de violino e o de violoncelo, sem falar do Carnaval do Animais, uma obra encantadora ou a Dansa Macabra, o Requiem, a Oratória de Natal, etc.etc.
Conceder-se a si próprio este manjar por uma ou duas horas permite-nos viver melhor e até mais longe.
O meu Avô costumava estender-se numa chaise longue junto ao rádio e, fechando os olhos, entregava-se ao prazer da música e do sossego. Viveu até aos 82 anos e mais viveria se não fora a sua loucura por viagens. Adoeceu em Vigo com uma pneumonia de que veio a falecer. Muito aprendi com ele...sobretudo a apreciar a paz.
Eis aqui um pedaço dum dos concertos para piano tocado pelo admirável Sokolov:
O que me salva às vezes é o MEZZO, sobretudo à tarde, e o Fox Crime que apresenta séries de casos judiciais com algum interesse e bem feitos. O resto é lixo puro e só quem não quer é que não se dedica a coisas mais interessantes.
Ontem acendi a lareira com facilidade pois os tarolos já estavam bem secos, as pinhas também e ainda tinha as acendalhas a ajudar. Rapidamente entrei naquele estado de nirvana, em que a visão das chamas na sua coreografia avermelhada e o ruído do crepitar e estalar são suficientes para esquecermos todos os males do mundo e acreditarmos numa felicidade à mão de semear.
A música também é um bálsamo. Desta vez foram dois concertos de Saint-Saens, um compositor francês menos popular, talvez do que Beethoven ou Mozart, mas que é dum vigor e brilhantismo impares. Qualquer pianista que toque bem Saint-Saens encontrou a receita para o sucesso porque é música empolgante tocada ao vivo. Gosto dos cinco concertos para piano e ainda dos de violino e o de violoncelo, sem falar do Carnaval do Animais, uma obra encantadora ou a Dansa Macabra, o Requiem, a Oratória de Natal, etc.etc.
Conceder-se a si próprio este manjar por uma ou duas horas permite-nos viver melhor e até mais longe.
O meu Avô costumava estender-se numa chaise longue junto ao rádio e, fechando os olhos, entregava-se ao prazer da música e do sossego. Viveu até aos 82 anos e mais viveria se não fora a sua loucura por viagens. Adoeceu em Vigo com uma pneumonia de que veio a falecer. Muito aprendi com ele...sobretudo a apreciar a paz.
Eis aqui um pedaço dum dos concertos para piano tocado pelo admirável Sokolov:
domingo, 30 de janeiro de 2011
O sol quando nasce é para todos
Hoje resolvi ir à Foz mais cedo do que o costume, estava uma manhã linda, sem vento , embora fria. Muni-me de casaco quente, cachecol, luvas, IPOD, máquina fotográfica, romance e telemóvel e lá fui para a paragem do autocarro. 5m depois aí estava o 204, vazio, que em 10m me pôs na Rua do Farol ( gosto deste nome...). Estive umas duas horas na esplanada a ver a maré a encher, a ouvir música e a olhar para o mar. 


Pouco li. Almocei um croissant com fiambre e um sumo de laranja. Havia pouca gente cá fora porque a humidade já se fazia sentir, embora o sol fosse quente. A vista é abrangente naquele local, vêem-se os veleiros, os petroleiros como sombras ao longe, as rochas muito nítidas de cores variegadas a serem chicoteadas pelas ondas que se desfazem em espuma dum branco imaculado. Lindo!
Apeteceu-me andar a pé - já estou habituada a exercício físico todos os dias e faz-me falta! - de modo que resolvi ir até ao Farol, que em contraluz, parecia uma miragem.
Pelo caminho, muitos joggers, casais, joven a conversar, namorados a tirar fotos, pescadores, gente rica e gente pobre, tudo em sintonia. É o que mais aprecio na Foz é a mistura de gente, não há distinção entre uns e outros e o sol é realmente para todos. à vinda passei por casas antigas
na Rua da Senhora da Luz ( outro nome que soa bem) e observei como são pitorescas e coloridas, embora estejam no meio de prédios horrendos , tortos e mal construídos. O autocarro já estava à minha espera na paragem, foi só subir e partir.

Ao passar pelo Jardim Botânico ainda tirei uma foto ao portão, com o jardim iluminado pelo sol e as camélias a atapetar o chão, à espera da noiva...
Apeteceu-me andar a pé - já estou habituada a exercício físico todos os dias e faz-me falta! - de modo que resolvi ir até ao Farol, que em contraluz, parecia uma miragem.
Ao passar pelo Jardim Botânico ainda tirei uma foto ao portão, com o jardim iluminado pelo sol e as camélias a atapetar o chão, à espera da noiva...
domingo, 12 de setembro de 2010
Domingo de verão
Na Foz parecia Julho ou Agosto. Um calor de rachar, nem pinga de vento, pessoas a disfrutar dos prazeres do verão serôdio. Crianças felizes. Mas muitos estrangeiros já de certa idade a tomar banhos e a namorar.
Por sorte o concurso challenge do site Woophy ( World of Photography) deste mês é : Pleasurable moments ( Momentos deliciosos). Tirei várias fotos e concorri, mas só depois do dia 15 saberemos quem venceu.
sábado, 17 de julho de 2010
Há livrarias que não deviam morrer...( in memoriam da Borders, UK)

Sempre adorei livrarias, mesmo quando não tinha dinheiro para comprar mais do que o jornal Letras e Artes, mas namorava tudo o que é livro, sobretudo os estrangeiros, franceses e ingleses, não por falta de patriotismo, mas porque desde pequena que as duas línguas eram para mim perfeitamente claras e havia muito mais diversidade de literatura à venda. Quando era criança, fui muitas vezes à saudosa Ática, na Rua Alexandre Herculano, que ficava por baixo do consultório do meu Pai e que pertencia á minha Madrinha. Que sorte, dirão os leitores deste blogue. Era mesmo, mas não aproveitei o suficiente. Nos dias dos meus anos, a senhora, que é francesa, casada com um primo direito da minha Mãe, dizia-me, persuasiva no seu sotaque de rrs rolados: " Minha querrida filha, vai à Ática e escolhe uns livrrros que queirrrras lerrr".
Não me esqueço da sensação estranha que era entrar naquela loja cheia a abarrotar de livros lindos e escolher algum para mim. O empregado cheio de mesuras e eu petrificada perante a responsabilidade. Lembro-me de, uma vez, com uns 4-5 anos, ter escolhido um livro daqueles em que se abrem as páginas e elas são todas recortadas de modo a formar uma imagem em três dimensões dum castelo, de fadas ou anões. Nessa altura não havia em lado nenhum livros desses, como há agora. Era lindo com salpicos dourados e prateados a cair da varinha de condão da fada.Nunca mais o esqueci.
Noutras alturas, desapontei a minha madrinha seriamente pois escolhi livros dos CINCO,
que eu adorava e lia várias vezes de fio a pavio, às vezes até a meias com as minhas irmãs, acabados de sair da editorial DN. Ela achava que os livros eram pechincha demais para serem prenda de anos e acabava por me dar outra coisa mais categorizada. Se eu soubesse teria pedido a colecção toda do Fernando Pessoa ou da Sophia, editados pela Ática.Mas só tinha uns dez anos.Outras livrarias que fazem parte do meu imaginário são a Buchholz, na Rua Castilho - ou lá perto -
onde passava horas esquecidas sentada ou ajoelhada no chão a folhear os livros que eles tinham em montes espalhados, já que as prateleiras estavam cheias. No meio de toda a literatura alemã, ainda encontrava os meus queridos Livres de Poche, gordinhos e com capa muito colorida. Li inúmeras obras inglesas ou americanas em francês pois gostava muito mais dos Livros de Poche do que dos da Penguin, com letra demasiado pequena e muito densos. Para ler os clássicos alemães, comprei muitos da colecção Aubier, que tinham do lado esquerdo a versão francesa e do lado direito a alemã, o que tornava a leitura bem mais acessível. Schiller, Lessing, Goethe e outros, foi quase tudo lido nessas edições bilingues e muito caras. Ia-se a minha mesada num ápice e o meu Pai não era muito generoso. A minha Madrinha, nessa altura, já não me oferecia livros....:)Aqui no Porto, tinha uma livraria de estimação, mas que não ficava muito à mão: a Leitura, na Rua de Ceuta.
. Agora já há uma no shopping Cidade do Porto que é muito agradável. Perto ficava a Livraria Britânica, especializada em livros dessa nacionalidade. Muito dinheiro lá gastei para o ensino... ainda agora me pergunto se valeu a pena. Como já trabalhava para a Porto Editora, comprava muito, tudo o que saía de novo, até vídeos e cassetes: As Mulherzinhas, Adrian Mole, O Diário de Anne Frank, Os Cinco, tenho tudo em cassete e agora já nem há leitores desses. Os meus alunos não apreciavam o espólio que eu levava para as aulas, achavam tudo muito difícil e , afinal, estava a dar-lhes de mão beijada aquilo que custava uma fortuna.Há meses fui a Leeds com a minha filha e tive um dos maiores desgostos da minha vida. Saímos na Headrow - rua principal da baixa - e fomos direitas à Livraria Borders, local de culto da minha filha e um dos meus tb por afinidade. Qual não é o nosso espanto quando vimos que a Livraria estava fechada já desde Novembro de 2009.
Os vidros sujos, uma papeleta a avisar do encerramento, mais nada. Quase chorei. A Borders era a melhor e mais mística livraria que conheci. Igual ou parecida só a Harvard Bookstore em Boston.
Espaçosa, aberta, cheia de cantos e recantos onde nos podíamos sentar e apreciar as obras, ouvir toda a espécie de música com headphones, um stand de revistas com tudo o que há sobre tudo o que acontece, um Starbucks Café, igualzinho aos americanos, com shortbread , cookies e brownies, chás de toda a espécie e um ambiente mágico. Podiam-se lá passar tardes e noites - fechava às 11 pm - e até não comprar nada. De vez em quando iam lá escritores como Paul Auster, Roger McGough ou Yasmina Reza fazer pequenas lectures.Li no Guardian que a Borders foi á falência, devido à concorrencia da Amazon e outra livrarias online. Um desastre irreparável.
Lá fomos à Waterstones, que é agora a rainha das livrarias, mas não é a mesma coisa. Nem poderia ser.

Espero que esta Entrada não pareça uma panóplia de nomes que nada vos dizem ou, mais grave ainda, expressão de vaidade ou show off. Estou muito comovida ( e um pouco revoltada) ao escrever estas memórias e ao relembrar tantos momentos belos que locais simples como uma livraria podem oferecer aos seus visitantes.
É um crime fechar cinemas como os quatro do shopping Cidade do Porto - Medeia -, encerrados há menos de um mês. Também não se deviam fechar livrarias ou cafés que têm uma história. Essa história é culto e património duma cidade. Ninguém fecha igrejas por falta de visitantes.
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