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segunda-feira, 25 de abril de 2011

DIA DA LIBERDADE- O meu 25 de Abril



Foi, sem dúvida, um dos dias mais marcantes da minha vida.

Tinha 25 anos vividos numa época semi- dourada - os anos 50 - e depois noutra mais alerta e desperta, no liceu e na universidade, onde já se vivia um período conturbado. Vivia bem, embora os meus pais nos educassem com parcimónia nos gastos, mas dava-me conta das desigualdades entre famílias e chocavam-me certas elites - que se auto-promoviam só porque provinham de uma qualquer família bem do nosso Estado Novo - desejosas de manter o statu quo, praticando a caridade, como mandava o Pároco na Missa aos domingos ou os Cursos de Cristandade e criando a ilusão de que vivíamos num mundo quase perfeito, em que não havia guerras, nem vestígios delas e as pessoas tinham direito a certas mordomias só pelo facto de terem nascido nessas famílias, dos seus pais terem tido uma educação, de terem conseguido vencer na vida e de praticarem o Bem à sua volta num marasmo celestial.

Nos anos 70, já havia a guerra de África, que me levou um cunhado aos 32 anos, os jovens já não tinham a mesma liberdade de saídas para o estrangeiro, o ambiente ficou cada vez mais tenso até eclodir em 25 de Abril.

Só comecei a ter preocupação política nos ultimos anos do liceu porque me dava com raparigas que eram "de esquerda", falavam da Pide e de presos políticos, escreviam ou representavam peças que eram repudiadas pela Reitora, encontravam-se na Capela do Rato e já revelavam uma certa anarquia e revolta contra o regime salazarista. As minhas maiores amigas eram bastante politizadas, embora com as limitações impostas pelas Mães que tudo controlavam, até as leituras, os filmes, as festas, os namoros e os locais de encontro.

No dia 25 de Abril de 1974 encontrava-me no epicentro da Revolução às 8 da manhã em pleno Marquês de Pombal, em Lisboa. Ia dar aulas no Liceu MªAmália quando fui abordada por um senhor que me avisou de que o liceu estaria fechado; tinha havido uma revolução. Era melhor eu ir para casa. O meu marido estava no Estado Maior do exército, cumprindo o serviço militar, e fora chamado para se reunir com os outros milicianos para decidirem o que fazer. Resolvi ir para casa dos meus Pais e seguir pela TV, com eles e os meus irmãos, o que se estava a passar. O meu Pai estava nervoso, na altura ocupava o lugar de Chefe de Serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria e era Professor da Faculdade de Medicina. Dava-se bem com Marcelo Caetano, que fora seu Reitor na UL.

Foi então que vi realmente o que estava a acontecer, como num filme a preto e branco. O povo andava todo na rua. Os soldados tinham-se revoltado, mas não havia sangue, nem tiros, parecia tudo normal ou quase. Berrava-se muito, não se sabia o que ia acontecer, as pessoas pareciam malucas, mas a cena era meio tragico-cómica, sem grande estardalhaço, nem mortos, nem feridos.

Os tempos que se seguiram foram para mim uma revelação. Estava a dar aulas num liceu antiquado, onde havia regras para tudo, mas onde as professoras, como eu, eram dum nível superior, em geral, com uma craveira acima da média; imediatamente se criaram grupos, uns mais revolucionários que tudo queriam mudar, outros mais temperados que achavam perigoso embarcar na anarquia reinante entre as alunas. Pendi sempre para a esquerda moderada e criei laços com pessoas excepcionais, aprendi a lidar com extremistas de ambos os lados, e deixei-me também levar pelos novos ideiais do socialismo, que dum momento para o outro tudo queria derrubar, sem edificar nada de muito concreto. Passávamos o tempo em RGAs, em que se discutia o sexo dos anjos e nada se conseguia fazer, pois ninguém se entendia e havia grupos de alunos que sistematicamente boicoitavam as discussões, querendo sanear professores a torto e a direito.
Resolvi então dar o corpo ao manifesto e ofereci-me para fazer parte duma lista que concorria com outras duas para a Gestão do Liceu. Tinha pessoas moderadas e também uma ou outra mais esquerdista, mas, no geral, eram pessoas com classe e a noção de que estávamos num estabelecimento de ensino e havia regras, mesmo usando a liberdade que nos tinha sido oferecida pelos militares de Abril. A nossa lista ganhou e passei o ano de 1974-75 a dar aulas e a gerir o Liceu com mais quatro colegas. Foi um ano épico. Tinha muito trabalho, passava horas infindas no Liceu, mas as conversas eram frutuosas e andava entusiasmada com o ambiente em que se vivia. Mudámos muitas regras obsoletas e criámos laços estreitos de Amizade com as alunas.
No 11 de Março de 1975 fui com alguns colegas para o Carmo e aí já estranhei o facciosismo de algumas pessoas, como uma mulher, que me levantou o braço direito à força e gritou:" Camarada, cante VITÓRIA!". Isso chocou-me mais do que qualquer discussão que tivesse tido com pessoas de esquerda. Nesse dia e após uma conversa com o meu marido, fez-se luz no meu espírito.
Não queríamos outro fascismo, agora de esquerda. Não queríamos ser governados por uma maioria comunista. Não queria ser obrigada a pensar pela cabeça dos outros. O meu marido, aliás, que era lúcido e conhecia bem as políticas e a evolução dos esquerdismos e comunismos - tinha em casa todos os livros sobre o assunto que jamais vi - aconselhou-me e bem a acalmar, pois não era com totalitarismos de esquerda que se podia chegar à LIBERDADE e à DEMOCRACIA.

Em Setembro de 1975, deixei Lisboa e fui viver para a Beira Baixa, na Sertã, local ermo, onde nada se passava, não havia telefones, a TV transmitia um canal e mal, a escola era técnica, só havia alunos até ao 5º ano (9º) e a minha missão foi ensinar português em vez de Inglês, que era o meu metier. Não me dei mal com a experiência, mas a revolução passou-me ao lado. Naquele ermo, tive o meu primeiro filho e os meus interesses deram uma volta de 180º.

A minha LIBERDADE passou a ser uma prioridade menor. Como mãe e esposa, o que desejava era que a minha família pequenina fosse feliz. E tudo o que fiz nesses dois anos foi ensinar alunos desfavorecidos o melhor que sabia e podia... e tratar dos meus para que se sentissem bem, longe de tudo e de todos.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A Baixa e a rentrée



Gosto muito de ir à Baixa aqui do Porto no Outono e no Natal.
Como gostava de ir à de Lisboa, antes do incêndio do Chiado, nos tempos em que a cerimónia das compras para a rentrée durava uma tarde inteira ou mais. Íamos com a minha Mãe em Outubro para comprar os cadernos e livros na Papelaria Fernandes da Rua do Ouro, junto ao elevador de S.Justa e ao Grandella. O Sr. Barrelas era o "nosso" empregado - penso que o meu Pai era medico dos filhos ou coisa que o valha - tratava-nos por tu e brincava connosco, enquanto aviava canetas, lápis, cadernos, compassos, papel, etc. um nunca acabar de coisas que a Mãe com uma paciência de santa escolhia para cada uma de nós. Éramos cinco irmãs no liceu ao mesmo tempo, do 1º ao 7º ano. Havia uma professora de História que nos chamava a "dinastia". Não havia hipermercados nesse tempo, nem podíamos tirar as coisas que queríamos das prateleiras, tínhamos de esperar que o senhor abrisse as caixinhas e então fossem escolhidos todos os itens de que precisávamos pela lista do liceu. Só faltava ao Sr. Barrelas aguçar os nossos lápis para tudo ficar impecável. Os materiais passavam de umas para as outras e às vezes faltavam, nunca tivémos compassos Kern ou lápis Carand'Ache, que eram o meu sonho. Os livros que já tinham sido do nosso irmão mais velho eram sempre herdados de ano para ano. Lembro-me de que havia comentários e bonecos escritos na margem por todos os membros da família, bigodes nas fotos dos reis, colares nas rainhas...e alguém da família especialmente inspirado tinha desenhado um hula-hoop à volta da cintura pouco esbelta do Rei Sol, Luis XIV de França, que no retrato mostrava as suas pernocas bem modeladas num pose assez chocante! Felizmente os profs nunca pediam para ver os nossos livros, nem mostravam os deles, cheios de cábulas! Uma prof de inglês trazia a tradução de todos os textos em letra miudinha por cima dos mesmos e quando éramos chamados, ela seguia pela sua cábula a nossa tradução a ver se estava conforme.:))

Mais tarde os livros dos meus filhos do Colégio Alemão eram encomendados em Julho na Livroluz, livraria de Cedofeita, e só vinham em Setembro. Eram lindos e carissimos, o meu ex- suspirava todos os anos, mas lá os pagava com dificuldade. Em casa eu forrava-os todos a plastico transparente para que não se estragassem, levava dois serões a fazê-lo. Depois, então, ia com os meninos ao Continente para comprarmos os restantes materiais e era tudo uma tentação, havia estantes recheadas que nunca mais acabavam, capas, cadernos pretos que os meus filhos depois decoravam a seu modo já com a ajuda do computador, lápis de cor, canetas de feltro de 60 cores diferentes, plasticos para meter fotocópias, um sem numero de coisas úteis e relativamente baratas. Aquelas idas ficaram-nos na memória, os meus filhos nunca mais as esqueceram, momentos excitantes em cada Setembro, todos os anos.

Hoje fui com a minha filha à Baixa. Almoçámos no Via Catarina,um dos mais belos shoppings que conheço, na Praça da Alimentação, que é toda decorada com casas típicas do Porto. Depois andámos a ver laptops para ela pelas várias lojas de electrodomesticos e acabámos na FNAC a tomar café. Não comprámos nada, a não ser um engenho para o meu IPOD, plastifiquei o meu cartão da ADSE na rua, vimos muitas coisas, mas limitámo-nos a passear, não me apetecia comprar roupas, nem materiais para pintura e ao fim de um bocado, já estava derreada, com dores nos jelhos e com vontade de descansar. Ainda viémos no autocarro 200 que leva algum tempo a dar a volta a cidade.
Pensei com alguma tristeza que os meus netos já não passam por estas experiências, já têm quase tudo em casa e é só meter na mochila. Não há grande emoção neste momento. Gostam mais da escola do que nós e reencontrar os amigos é para eles um momento óptimo. As relações sociais importam-lhes mais do que os objectos, ainda bem.