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sábado, 5 de março de 2011

Exposição à vista

Surpreendo-me sempre ( como a minha amiga Regina) quando tenho ensejo de expôr os meus quadros, embora ache que eles merecem ser vistos. A minha primeira exposição foi em Lisboa, no ESCA - onde os meu irmãos trabalham como pediatras, na Alameda Afonso Henriques, local muito simpático da capital. Na altura não fazia ideia de como enviar os quadros para lá - cerca de vinte - e foi o meu professor Nikola Raspopovic que me deu a morada duma transportadora que fez o serviço a um preço inacreditávelmente barato. Tive de os embalar e eles levaram e trouxeram-nos. Fui lá na véspera da inauguração ajudar a pendurá-los nos sítios
mais convenientes que se resumiam a uma pequena entrada, um enorme corredor e uma sala de espera. Couberam todos com jeito. Muitas pessoas passaram por lá, não para ver os quadros, mas para levar os seus meninos aos doutores...mas talvez tenha havido ainda algumas visitas de familiares interessados. Não fiz vernissage, limitei-me a ir jantar com o meu irmão e amigos. Foi óptimo. A minha maior alegria foi o meu irmão ter-me dito que quando entrava no consultório se sentia melhor ao ver as paredes tão quentes e coloridas. O tema da exposição foi Seasons come, seasons go e muitos dos quadros eram figurativos, sendo o tema "árvores" o mais comum. Vai aqui um quadro dos que estiveram expostos.
Depois de entrar para a Escola Utopia, foi-nos sugerido fazer um quadro alusivo ao Xacobeo - os Caminhos de Santiago - e, embora não estivesse numa fase muito inspirada para o figurativo, alinhei e com a ajuda do Professor Domingos Loureiro, produzi uma pintura inspirada em fotografias que tinha sobreposto. Foi esse o quadro que andou doze meses em terras do Minho e Galicia, depois complementado por outro que fizémos para que a exposição do Xacobeo em Valência continuasse por mais algum tempo.
Em meados de Março, a Vivacidade convidou-me para fazer lá uma exposição, que se chamou Cor em Movimento. Aí vi que os media deram bastante relevo ao evento, tendo vindo inclusivé citado numa sugestão do Público para visita do dia. Fiquei comovida com alguns comentários que ouvi de pessoas amigas e colegas de profissão.
Em Maio o Spazo Zen comemorou três anos de existência. Situando-se mesmo por baixo da minha casa, criei uma relação de amizade com a proprietária que, gentilmente, me perguntou se quereria expôr lá alguns quadros para a ocasião. Ficaram lindos num local onde tudo é escolhido com gosto para criar ambiente.
Entretanto expus quadros meus na Utopia, juntamente com outras colegas da pintura.
Este ano, o Vivacidade voltou a propor-me uma exposição para Abril próximo, o que me alegrou muitíssimo, não só porque tenho feito muitos quadros novos que nunca foram vistos, como pelo facto de ser num mês de férias em que as pessoas estão mais livres para virem vê-la de Lisboa ou de Coimbra onde tenho a minha família quase toda. Hoje já seleccionei os quadros a expôr, com alguma dificuldade, devo dizer. Tenho muitos, mas de várias temáticas diferentes e portanto, terão de se agrupar de um modo harmonioso. Ainda não sei como se vai chamar, embora tenha uma ideia quase definida.
É bom sermos apreciados, mesmo quando não criamos obras para expôr ou fazer vida. Bem hajam as pessoas que nos dão essas chances num país em que a Arte não é muito apoiada.

domingo, 24 de outubro de 2010

PARENTHOOD- relações familiares

Comecei a ver esta série da FOX LIFE há duas semanas e gostei bastante do primeiro episódio. Gostei tanto que resolvi fazer o download da primeira temporada toda, que consta de 13 episódios.
Já vou no 6º e continuo a gostar, embora possa parecer um pouco cliché por vezes e retrate o típico american way of life, cheio de problemas que se solucionam ao fim de dois episódios e que pode cansar depois de algum tempo. Alguns actores são excelentes e conhecidos de outras séries como Peter Krause - o Nate de Six Feet Under ( Sete palmos de Terra), uma das melhores séries sobre a família que vi na minha vida, Monika Potter, a mãe de Mãe e Filha, que faz um papel totalmente diferente e bastante real.
O conflito de gerações, a solidariedade entre irmãos, os problemas pessoais, os namoros, a deficiência ( autismo) duma criança, a paternidade vs maternidade, a escola, o basebol. são temas actuais e quanto a mim, tratados com delicadeza, ainda que sempre adocicados à americana. Vale a pena ver.

Segundo o meu filho mais velho que começou a ver a série e não gostou, ela tem um defeito: é demasiado real e por isso inquieta quem tem filhos !

Um aparte: ontem resolvi ver parte do último episódio da telenovela Meu Amor na TVI só por curiosidade e fiquei embasbacada com a pobreza geral da série. São os actores que exageram até mais não, ultradramáticos e sem qualquer naturalidade, a história que é uma pepineira a imitar as telenovelas brasileiras, sem pinga de humor, diálogos chatos, lentos, rastejantes, mesmo. Pensar que grande parte da população vê três destas novelas todas as noites é mau de mais! Não admira que o grau de exigência seja cada vez mais baixo e as crianças fiquem estupidificadas desde que começam a ver os Morangos Com Açucar, um atestado à inteligência dos nossos adolescentes.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A Baixa e a rentrée



Gosto muito de ir à Baixa aqui do Porto no Outono e no Natal.
Como gostava de ir à de Lisboa, antes do incêndio do Chiado, nos tempos em que a cerimónia das compras para a rentrée durava uma tarde inteira ou mais. Íamos com a minha Mãe em Outubro para comprar os cadernos e livros na Papelaria Fernandes da Rua do Ouro, junto ao elevador de S.Justa e ao Grandella. O Sr. Barrelas era o "nosso" empregado - penso que o meu Pai era medico dos filhos ou coisa que o valha - tratava-nos por tu e brincava connosco, enquanto aviava canetas, lápis, cadernos, compassos, papel, etc. um nunca acabar de coisas que a Mãe com uma paciência de santa escolhia para cada uma de nós. Éramos cinco irmãs no liceu ao mesmo tempo, do 1º ao 7º ano. Havia uma professora de História que nos chamava a "dinastia". Não havia hipermercados nesse tempo, nem podíamos tirar as coisas que queríamos das prateleiras, tínhamos de esperar que o senhor abrisse as caixinhas e então fossem escolhidos todos os itens de que precisávamos pela lista do liceu. Só faltava ao Sr. Barrelas aguçar os nossos lápis para tudo ficar impecável. Os materiais passavam de umas para as outras e às vezes faltavam, nunca tivémos compassos Kern ou lápis Carand'Ache, que eram o meu sonho. Os livros que já tinham sido do nosso irmão mais velho eram sempre herdados de ano para ano. Lembro-me de que havia comentários e bonecos escritos na margem por todos os membros da família, bigodes nas fotos dos reis, colares nas rainhas...e alguém da família especialmente inspirado tinha desenhado um hula-hoop à volta da cintura pouco esbelta do Rei Sol, Luis XIV de França, que no retrato mostrava as suas pernocas bem modeladas num pose assez chocante! Felizmente os profs nunca pediam para ver os nossos livros, nem mostravam os deles, cheios de cábulas! Uma prof de inglês trazia a tradução de todos os textos em letra miudinha por cima dos mesmos e quando éramos chamados, ela seguia pela sua cábula a nossa tradução a ver se estava conforme.:))

Mais tarde os livros dos meus filhos do Colégio Alemão eram encomendados em Julho na Livroluz, livraria de Cedofeita, e só vinham em Setembro. Eram lindos e carissimos, o meu ex- suspirava todos os anos, mas lá os pagava com dificuldade. Em casa eu forrava-os todos a plastico transparente para que não se estragassem, levava dois serões a fazê-lo. Depois, então, ia com os meninos ao Continente para comprarmos os restantes materiais e era tudo uma tentação, havia estantes recheadas que nunca mais acabavam, capas, cadernos pretos que os meus filhos depois decoravam a seu modo já com a ajuda do computador, lápis de cor, canetas de feltro de 60 cores diferentes, plasticos para meter fotocópias, um sem numero de coisas úteis e relativamente baratas. Aquelas idas ficaram-nos na memória, os meus filhos nunca mais as esqueceram, momentos excitantes em cada Setembro, todos os anos.

Hoje fui com a minha filha à Baixa. Almoçámos no Via Catarina,um dos mais belos shoppings que conheço, na Praça da Alimentação, que é toda decorada com casas típicas do Porto. Depois andámos a ver laptops para ela pelas várias lojas de electrodomesticos e acabámos na FNAC a tomar café. Não comprámos nada, a não ser um engenho para o meu IPOD, plastifiquei o meu cartão da ADSE na rua, vimos muitas coisas, mas limitámo-nos a passear, não me apetecia comprar roupas, nem materiais para pintura e ao fim de um bocado, já estava derreada, com dores nos jelhos e com vontade de descansar. Ainda viémos no autocarro 200 que leva algum tempo a dar a volta a cidade.
Pensei com alguma tristeza que os meus netos já não passam por estas experiências, já têm quase tudo em casa e é só meter na mochila. Não há grande emoção neste momento. Gostam mais da escola do que nós e reencontrar os amigos é para eles um momento óptimo. As relações sociais importam-lhes mais do que os objectos, ainda bem.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Algo que nunca se esquece



Recebi agora mesmo um e-mail e estou lavada em lágrimas. Por isso quero escrever esta Entrada, exprimindo a minha surpresa=comoção neste momento único, que me transportou sete anos atrás para recordar uma das melhores turmas que tive na Escola Carolina Michaelis e um dos melhores e mais criativos alunos que aí encontrei.
Nunca me tinha ocorrido que o meu blogue pudesse ser lido pelos meus alunos - e tive-os às centenas, aqui e em Lisboa, na Beira Baixa e Chaves - e também nunca imaginei que um deles tivesse vontade ou coragem de me escrever aqui. O blogue foi sempre uma coisa de adultos.
O aluno que me escreveu já é adulto. Deve ter uns 23 anos agora. Era o Diogo, que fazia gato-sapato de alguns professores, muito brincalhão, com uma inteligência espontânea acima da média e uma fluência de Inglês extraordinária. Fazia-me rir, o que não acontecia com muitos alunos de 16 anos.Só falava em inglês, até me esquecia que ele era português. Ainda me lembro do lugar dele, na 2ª fila em frente ao quadro, com o cabelo encaracolado e a tez morena. Tinha a paixão da Moda e nessa altura, daria toda a sua mesada por uns jeans cheios de rasgões, muito "baggy" (largueirões) que chegavam quase ao chão. Uma vez em que o chamei ao quadro, virou-se em pose e perguntou : "Do you like my pants?"( Gosta das minhas calças?) Fez aquilo tão espontaneamente que dei uma gargalhada e tive que dizer que sim, que as adorava...a partir daí, conversávamos de moda muitas vezes, embora fosse tema que eu não dominava de modo nenhum. Por acaso , agora, até vejo os Project Runway, na Sic Mulher, que são apaixonantes e que ele deve adorar.
Esta turma foi uma das maiores que tive- penso que seriam 29 alunos - e que mais recordações me deixou naqueles dois anos em que lhes ensinei inglês. Um outro aluno, chamado José Carlos fez uma apresentação das eleições americanas - do Bush - em transparências que nem um professor da Faculdade o faria tão bem. E havia lá uma rapariga, cujo nome agora me escapa, que era louca pelo Harry Potter, e que ansiava pela saída do novo livro em inglês para o ler...e também uma outra rapariga que era fan fiel do Boavista, contrastando com os restantes, quase todos portistas.

Que saudades...de repente desejei ser outra vez professora, poder inspirar alguém desta maneira.

O email está escrito em inglês, mas não hesito em colocá-lo aqui. Espero que não interpretem isto como um sinal de vaidade ou show off, mas como homenagem sentida aos meus alunos - que porventura andarem por aqui - e a uma das profissões mais belas que existe no mundo.

E se leres isto, Diogo, acredita que os alunos dão muito mais aos professores do que vice-versa. A sua espontaneidade, generosidade e juventude faz-nos rejuvenescer também...e, amiúde, sobreviver para lá dos problemas e imbróglios da Educação em Portugal.

Dear Teacher Virgínia

I do not know whether you remember me, but I was a pupil of yours a few years ago (in 2003, I think) at Carolina. I have accidentally found your blog and could not help but contact you to let you know that I absolutely loved having you as my teacher. Sometimes I still dream back to our classes in those crowded classrooms, with an overcast sky outside partly shielded by the dusty green curtains that made us all suffer from rhinitis; and no matter how despondent I feel it never fails to make me smile.
I have always had a passion for English, both the language and the culture, so it is not remarkable that an English teacher during my adolescence should have made a lasting impression on me. However, you are not remembered as just yet another teacher, but as a person whose inspirational teaching not only helped me improve my fluency but also grow up as a human being.
I hope I am not disturbing you with these ramblings of mine. I also apologize for writing in English. But I wanted to get back to the past, even if just for the span of an email…

Thank you for everything,

Diogo de Melo Lourenço

terça-feira, 6 de julho de 2010

Voltei à Escola

Hoje voltei ao atelier...e foi uma festa. Fiquei feliz com a recepção de pessoas que só me conhecem muitas delas há meses...é mesmo uma família, onde se cria e pinta, mas onde se trocam impressões, contam-se histórias, recordam-se episódios das nossas juventudes ou infâncias - tão diversas - e sobretudo, onde se sente uma camaradagem que não dá lugar a invejas, a competição ou a mesquinhez. É tudo são e bonito.

Estava lá uma exposição que tinha sido inaugurada no dia 19 quando fizeram a churrascada de S. João, à qual não estive presente. Lá estava o meu quadro que destoava um tanto dos outros em estilo. Não gosto muito de expos colectivas porque acho que a maioria dos quadros ficaria melhor isolada numa parede. Havia lá quadros lindos, mas no meio de todos, nem se notam. São gostos....

Encontrei dois quadros meus por acabar, já nem me lembrava bem deles. Acabei-os ou pelo menos considero um deles terminado.
Comecei-o há uns três meses quando me iniciei no impasto pela primeira vez. Neste usei técnicas em acrílico que nunca tinha usado, misturas muito líquidas - aguadas - que se vão sobrepondo sobre os relevos do impasto e deixados a secar de forma a diluirem-se e a tomarem formas de cores diferentes.
O quadro está mesmo bonito, graças ao meu professor que foi sugerindo as mudanças. Deste gosto ( ainda bem porque já estava a ficar deprimida com a minha falta de motivação).

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Xacobeo 2010 - Credencial do Peregrino




Já falei deste evento religioso e místico há uns meses, quando nos propuseram integrar uma exposição itinerante num intercâmbio entre o centro cultural de o Grove e a Escola Utopia. Na altura não me parecia talhada para fazer um quadro desse tipo,mas alinhei com outros colegas e a verdade é que os nossos quadros têm sido apreciados por esse Minho fora, tendo sido expostos em Ponte de Lima, Arcos de Valdevez e Valença, donde se deslocarão agora para Tuy.
Todas as vezes que os quadros são mudados de cidade, alguns alunos da Escola, os seus dirigentes e o Professor Domingos Loureiro vão acompanhá-los de camioneta ou de carro, aproveitando-se a ocasião para confraternizar, almoçar, ver a nova exposição e a paisagem maravilhosa do Minho primaveril.
Tendo a exposição de Valença que terminar a 15 de Maio, os promotores locais pediram à Utopia que substituíssem esses quadros por outros relacionados com o mesmo tema, de modo que o local não ficasse tão despido. O professor propôs-nos fazer novos quadros, sobretudo àqueles alunos que não tinham participado na primeira mostra; eu não alinhei, dado que não me sentia inspirada para trabalhar em algo figurativo e estava mais numa maré de abstractos.
Ontem ao ver tantos colegas entusiasmados, mesmo no fim da aula, perguntei ao professor se ainda havia hipóteses de entrar. A resposta foi positiva. Escolhi uma fotocópia sobre o tema que a minha colega Eugénia tinha levado para a escola e vim para casa com vontade de experimentar um novo estilo.

Fui buscar mais informação à net - essa fonte inesgotável - e descobri que esta fotocópia reproduz a capa da Credencial do Peregrino, obrigatória para todos os que querem participar a pé, a cavalo ou de bicicleta na Peregrinação a Santiago de Compostela, partam eles donde quer que seja. A Credencial é um livrinho em forma de acordeão, com directivas, mapas, percursos, moradas de albergues, centros de saúde, etc. e onde se vai registando e carimbando todos os paradeiros onde o Peregrino se acolhe. É obrigatório possuir a credencial, que se obtém em Portugal apenas através da Universidade Católica de Braga.


Eis o quadro feito por mim ontem e hoje, ainda sem aval do profesor e com algumas letras escritas no Picasa, mas que serão pintadas na Escola amanhã.
Gosto muito das cores escolhidas sobre o impasto que foi todo trabalhado ontem ao fim da tarde, de modo a dar relevo aos simbolos principais: a cabaça, que srve para transportar a água, a concha por onde se bebe a água das fontes, o cajado ou bordão e a chave que ainda não compreendi para que serve, mas que amanhã já saberei. Posto isto, gostaria de confessar, que se fosse mais nova e não tivesse tantos problemas de artrose num joelho, seria tentada a fazer uma caminhada por esses montes e vales, meditando e encontrando pasto espiritual, tão necessário nos nosso dias.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Aprender línguas


elmorisette.blogspot.com/

Hoje no I vem um artigo bastante longo sobre os portugueses e as línguas estrangeiras, que se aprendem ou se deseja aprender na escola.
Ensinei inglês e alemão durante anos. Alemão era para os alunos que queriam seguir Direito ou Germânicas, os únicos cursos que exigiam essa Língua. Hoje está quase eradicado da Escola, mesmo a nível do secundário, porque a maioria dos alunos acha a língua muito difícil e quer ter boas notas para poder entrar na universidade. Um contrasenso, pois só deviam contar para entrada na universidade as cadeiras nucleares e o resto deviam ser opções, quantas mais melhor, de quem quer crescer culturalmente, independentemente da via que vai seguir.As Línguas não são um luxo, mas uma necessidade.
Os meus filhos andaram todos no colégio alemão - não por luxo, mas por opção nossa, apesar de sermos bastante "remediados" nessa altura, estarmos a pagar o apartamento e termos tido tres filhos em 4 anos - 1976, 1979 e 1080, o que é obra! Fizémos enormes sacrifícios para lhes dar uma educação estrangeira a par da portuguesa, não viajámos durante anos, nem íamos ao cinema nem a restaurantes,sequer. O dinheiro desaparecia em propinas, camioneta e livros ou materiais escolares. Só houve dinheiro mais tarde, quando comecei a poder trabalhar noutras escolas- na Escola Prifissional de Música e no Isai, por exemplo - e a partir de 1985 para a Porto Editora, o que me permitiu outros vôos. Mas valeu a pena: os filhos falam 4 linguas, o que foi muito bom para o futuro deles.
Infelizmente, nessa altura, os alunos só tinham aulas de manhã até ao 9ºano...o que me obrigava a estar em casa de tarde, com horário misto ou a ter empregada nalguns dias. Faziam os TPCs todos em casa, o que já não acontece hoje em dia. O Colégio agora está aberto até às 5 e até nos dias de férias,os miudos vão para actividades durante o dia....nunca mais passam férias com os pais, a não ser no Verão.Também se paga muito mais do que nos anos 80-90.



Acho que se deve aprender línguas enquanto se é criança, mas não acredito muito no ensino do inglês aos pequenitos da primária pelos processos que tenho visto implementar nas escolas públicas. Os professores não têm preparação para lidar com crianças. Não é com joguinhos e canções que se aprende inglês, mas com escrita, muitos exercícios, muita comunicação oral com pés e cabeça e sobretudo com imersão na língua, experiências no estrangeiro, em locais onde só se pode falar inglês ou alemão.
Aprender espanhol na Escola, muito popular neste momento, será útil para os que querem tirar cursos em Espanha, mas o Inglês continua a ser a lingua franca das universidades de todo o mundo, na Ásia, nos EU e nos países europeus mais periféricos. Quem não sabe inglês, tem muita dificuldade em viver no estrangeiro, daí ser óptimo entrar em programas Erasmus, Comenius e outros.

Sinto-me privilegiada por poder falar 4 línguas bem. Ajuda-me muito quando vou ao estrangeiro e não só; para a minha progressão espiritual, intelectual e cultural também. É uma questão de cidadania.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Voltei à escola




Quando me aposentei há dois anos, em Janeiro de 2008, senti um enorme alívio por não ter de voltar à escola, sair da rotina que me obrigava a levantar as 7 todos os dias, apanhar um autocarro e o metro, para estar as 8.30 na escola.
Sempre gostei de ensinar, não é disso que se trata. O problema residia no ambiente terrível que se vivia nessa altura, a pressão exercida sobre os docentes, como se deles tivesse vindo todo o mal ao mundo, o label de calaceiros que nos colavam, a obrigatoriedade das aulas de substituição - algo que nunca foi pensado em termos de pedagogia, mas tão somente para babysit os alunos indisciplinados e fartos de escola, as aulas de 90m, a invenção mais estapafúrdia que alguma vez saiu da 5 de Outubro, as actividades no Clube de Línguas - todo decorado pelos profs, muito cosy , com revistas, filmes, actividades, etc,- mas que acabava por ser desperdiçado pelos alunos revoltados por não poderem sair, enfim, uma panóplia de contra-sensos e de traumas, que o império da MLR veio trazer a um lugar onde os bons professores cumpriam até mais do que lhes era pedido.
Muitos projectos fiz com os alunos - entrevistas gravadas num Congresso da APPI a vinte profs estrangeiros que nos visitaram, estudo e expo sobre as instituições inglesas do Porto, que nos levaram a visitar e conhecer seis locais e histórias diferentes, passeio ao Gerês com os alunos mais novos, com piquenique na mata ( e uma cabeça partida duma aluna que foi alvejada por outro alunos com uma pedra (!)), jornal em inglês financiado por mim quase inteiramente, culinária na biblioteca ( as célebres bolachinhas inglesas, cujo cheiro chegava ao andar de baixo), tudo isso fez parte dum percurso de que me orgulho e que ainda hoje é recordado com enorme saudade pelas minhas ex-estagiárias de há 20 anos, quando as encontro fortuitamente.

Pensava não voltar a dar aulas....e sentia-me feliz. Os manuais escolares, que fiz durante vinte e cinco anos também estavam em standby devido à lei dos seis anos de vigência, com que discordo plenamente ( já viram o que é ler agora sobre o Bush ou sobre a Margaret Thatcher, os Pink Floyd ou Dire Straits??? Os alunos acham uma seca...e compreende-se, de modo que o professor tem de substituir essas actividades por outras todos os dias, deixando de lado o manual, que custou 20 euros.

A Vivacidade, esse espaço super dinâmico que ainda agora me surpreende convidou-me há um mês para fazer um workshop de Inglês para pessoas já aposentadas ou interessadas em viajar e esquecidas do que eventualmente
aprenderam há mais de quarenta anos.
Na altura pensei NÃO, não sou competente para isso, nunca dei aulas a adultos, já não sei ensinar beginners , já não tenho elan nem dinamismo para motivar as pessoas.
Mas acabei por aceitar o desafio.
O Workshop centra-se em comunicação oral e auditiva, posso usar a Internet, CDs e musica, o que quiser.
Levei horas a preparar a primeira aula, que se realizou na 2ªfeira, pedi à minha filha que fosse a minha co-piloto, devido à sua juventude e conhecimentos da língua e lá fui expectante para a Vivacidade.
Tudo correu maravilhosamente...as alunas são cinco estrelas, a motivação é enorme, o ambiente é relaxante, cada pessoa assume uma personalidade diferente - Jessica, Ashley, Susan, Polly, Sarah, etc. são os nomes escolhidos - eu serei a Ms Simpson e a minha fila Ms Simpson Jr. Começámos por um Jogo do Galo com palavras inglesas e acabámos com o visionamento do trailer de Spanglish, um filme muito interessante sobre a diferença de culturas.


As alunas gostaram, hoje continuamos. E eu cheguei à conclusão de que ADORO ENSINAR...seja o que for...desde que os alunos queiram aprender. Sinto-me FELIZ.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Leitura fora de casa



Li ontem no I uma reportagem interessante sobre as leituras que se fazem nos transportes públicos em Lisboa. Pelos vistos ainda há quem leia no metro, nos autocarros, pendurado nos varões, em pé. Aqui no Porto é raro ver pessoas a ler nos autocarros, mas a falar ao telemóvel são às dezenas, incomodando todos os utentes e fazendo-nos tomar parte nas conversas desenxabidas que por vezes têm com amigos e familiares.Nos comboios, então, nem se fala. Tenta-se dormitar e só se ouvem toques, qual deles mais embirrento e pessoal.



Sempre li nos transportes em Lisboa. Fazia todos os dias o percurso Restelo-Cidade Universitária, no tempo em que o metro era um centímetro e não me adiantava para nada. Tinha de apanhar o autocarro 12 até ao Calvário ( nome sugestivo), aí esperar pelo 38 que percorria quase Lx inteira até ao Hospital de Santa Maria. Levava uma hora e meia por vezes. Escusado será dizer que lia, lia e voltava a ler. Até fazia tricot, muita camisola foi feita por ali.Sempre gostei de ler livros de fio a pavio - Gone with the Wind, Exodus, Guerra e Paz, Os Irmãos Karamazov, são alguns exemplos - até que há uns anos deixei de poder ler sem óculos. Os óculos complicam-me a vida, embora ainda consiga ler letras maiores, como o jornal I, por exemplo, sem eles. Só tenho 1,5 dioptrias.
Lembro-me dum ritual sagrado que cumpria amiude: ia apanhar o autocarro 43 à Praça da Figueira, donde ele partia, e comprava o JL que vendiam no chão junto à paragem. Deleitava-me a ler sobre literatura e novos livros de poesia, cinema e artes. Era barato.
Também li muito Shakespeare nos autocarros, apesar da letra minuscula e da complexidade da escrita. Só para a cadeira de Literatura I tive de ler treze peças em inglês, conhecer os enredos, localizar citações, enfim, um trabalho ciclópico que hoje já ninguém faz. Lêem a tradução ou os resumos já feitos na Internet. Nós tínhamos exames no anfiteatro, em que era possível consultar as obras, mas as citações baralhavam-se no nosso espírito e era bem difícil distinguir as comédias das tragédias, pois S. é sempre denso e filosófico.

Sobre Shakespeare, há um história engraçada que não resisto a contar.
Quando a Internet começou já há uns bons doze anos, quis preparar uma sessão da APPI sobre as possibilidades que se abriam, através dela, na preparação de aulas completamente diferentes e inovadoras. Ao fazer uma busca sobre Shakespeare, que na altura era tema obrigatório no 12º ano, encontrei inúmeros sites em que jovens faziam perguntas sobre os enredos das peças, de modo a poderem realizar os seus trabalhos da escola. Num forum sobre TPCs, um jovem pôs esta questão: Alguém me pode ajudar? Queria saber o nome de todas as personagens que morrem no final da peça Hamlet.. O forum era inglês ou americano. Uma das respostas foi : I wish I knew it ( Quem me dera a mim saber isso).

sábado, 19 de dezembro de 2009

Arte: Teresa Silva Vieira - a UTOPIA em actos



O objectivo profundo do artista é dar mais do que aquilo que tem

Valéry , Paul



Ao procurar citações sobre Arte, encontrei esta que acho fica a matar quando se pensa na Teresa Silva Vieira, a fundadora com o seu marido, José, da ESCOLA UTOPIA.
Já há muito que queria fazer aqui uma homenagem à pintora, mas não tinha fotografias das telas para ilustrar o texto. Felizmente agora já possuo alguns exemplos, de modo a poder afirmar que a TSV ( não confundir com TGV, embora ela ande sempre a alta velocidade) é uma artista completa, que não vive virada para si mesma , mas para os outros, procurando incutir neles todo o seu entusiasmo pelas actividades neste domínio. Não é fácil gerir uma escola com tantos alunos, com expos a toda a hora, projectos internacionais, venda dos materiais necessários, intercâmbios. A escola Utopia pode orgulhar-se de fazer felizes muitos aspirantes a artistas e mesmo a artistas já consagrados. Os professores gostam do que fazem e isso é vital para a criação nas Artes Plásticas.

Hoje queria mostrar-vos o lado criativo da Teresa, uma artista versátil, cujo trabalho me encanta pelo calor das suas telas, pela simplicidade das mesmas e pelos vários processos e técnicas que usa. Para além da pintura, a Teresa ainda faz artesanato, vitrais, pintura em vidro, cerâmica, etc.

Eis alguns dos meus favoritos, embora aqui não estejam todos os que gosto:






terça-feira, 22 de setembro de 2009

Utopia


Comecei hoje a mnha nova experiência no mundo das artes. Entrei para o atelier da Escola Utopia, cuja foto podem ver ao lado. É uma escola familiar, extremamente acolhedora e mais frequentada por pessoas maiores de 50 anos, pelo menos àquela hora. Há mais novos a outras horas, provavelmente.
Senti-me bem, como se já conhecesse o local e as pessoas há longo tempo. É curioso como certos locais nos parecem estranhos, mesmo depois de lá irmos muitas vezes outros surgem de repente na nossa vida como se lá tivessem estado sempre.

Já aprendi coisas novas,uma delas um método usado por Turner,o grande pintor inglês, para tingir os seus quadros de uma nebulosidade que atenua as cores naturais e dá-lhes um patine leve e subtil.Usei-a neste quadro que fiz para o meu irmão ( se gostar dele...)

Também aprendi que os meus quadros são um pouco unidimensionais -pelas fotos que levei - falta-lhes profundidade e perspectiva, mas por outro lado, estão repletos de "emoção",:=} segundo o meu novo professor, Domingos Loureiro, que apresentarei noutra entrada. Fiquei contente com a crítica e vou estudar um pouco mais de perspectiva, coisa que nunca fiz a sério.

Falámos bastante de Paula Rego e da dimensão internacional de alguns pintores portugueses, muitissimo conhecidos lá fora e só tardiamente reconhecidos cá dentro.
Lembro-me que há uns dez anos fui a Londres com a minha filha e resolvemos ir à cafeteria almoçar depois de calcorrear kms a ver pintura. Eis o meu espanto quando olhei para o fundo da sala e vejo uma enorme parede circular pintada de alto a baixo com um mural de Paula Rego. Aquelas figuras grotescas entravam-nos pelos olhos e não era possível desfitá-las a não ser de costas....:),perdi um pouco avontade de comer, mas só nessa altura compreendi como ela é famosa em Inglaterra e como adoram os seus contos para crianças - as nursery rhymes - tão espectaculares quanto horrorosas. Ela é única,goste-se ou não.



A minha pintura de hoje não tem nada de grotesco,mas tem algo de atmosférico...não sei se vai chover...ou trovejar,mas o céu não augura nada de bom.

Aqui vai sem nome ainda...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Regina Gouveia


A Regina foi minha colega na Escola Carolina Michaelis e, embora ela leccionasse Física-Química e eu Inglês, a nossa vivência da escola e sobretudo, a nossa carolice e motivação - muito antes desta era socrática - aproximou-nos.

O feitio dela não era muito parecido com o meu. Ela era muito mais interveniente e eu mantinha quase sempre low profile. Ainda me lembro de Conselhos Pedagógicos em que a Regina estava do contra e falava tão depressa que ninguém compreendia o que ela dizia. Mas tinha razão:)

A Regina tem costela transmontana e isso nota-se muito nela. Vivi dois anos em Chaves e sei como eles são, raçudos, inteligentes e sensíveis, pessoas diferentes. Sempre achei extraordinário o seu jeito de mãos, fazia camisolas e casacos lindíssimos em lãs diversas e andava sempre com cachecois, pois tremia de frio nos laboratórios de Física. As joias simples que usava - e que se podem ver na foto acima - eram feitas de objectos que encontrava, conchas, pedaços de pedra, que ela moldava e tornava uma obra unica.

Ficámos amigas. Pura empatia, eu que não tinha muitas amigas na escola, ela que era mais popular, muito admirada, mas bastante reservada. Descobrimos, há dias, que ambas nos aposentámos um pouco pelas mesmas razões - ela com 39 anos de ensino e 22 de orientação de estágio, eu com 37 e 16 de orientação. A Regina, porém,  está muitos furos acima, tirou um Mestrado em Educação,  trabalhou na Universidade do Porto e  recebeu vários prémios, um dos quais o Prémio Rómulo de Carvalho, professor que, por coincidência, o foi do meu irmão Mário no Pedro Nunes e meu colega durante o ano de estágio e, alem do mais, o grande Poeta António Gedeão.

A Regina começou a pintar num atelier, como eu. Mas também publica livros e faz poemas para adultos e para crianças, que eu não faço, nem nunca fiz.

Daí eu querer prestar-lhe esta pequena homenagem, num blogue dedicado às artes divulgando alguns dos seus poemas. Não consegui fazer o upload das pinturas que ela me mandou em word, mas em breve o farei.

Aqui estão:

Silêncio branco

Nos enredos da memória, por entre o silêncio branco, 

vão desfilando sombras de mil vozes e penumbras de mil cores, 

as palavras não ditas e as reditas, a luz que o orvalho dispersou,

os murmúrios do mar e os sussurros do vento, 

o reverso do tempo que eu tento aprisionar

no búzio que a maré aqui deixou.

Andante

Em Agosto, o sol rubro ao poente 

antecipando um dia muito quente

e o alegre canto da cigarra 

que a morna brisa acalentava, 

faziam o poema.

Em Novembro, as cores outonais

das folhas, bailarinas surreais

que caídas no fim do seu tempo

bailavam ao sabor do vento,

faziam o poema.

Em Dezembro, o crepitar da lareira

e o manto branco na ladeira, 

emprestando um ar de fantasia

a um natal pleno de magia,

faziam o poema.

Em Maio, o campo com seu ar de festa

exalando um subtil odor a giesta

e o rubro das papoilas nas searas,

contrastando com tímidas flores claras, 

faziam o poema.

O poema estava ali, 

não precisava de palavras.

Procuro o tempo

Procuro o tempo por detrás do tempo.

Procuro um tempo, linha aberta, não sei se parábola, se recta, 

fluindo em direcção ao infinito.

Procuro o tempo por detrás do tempo

mas o que encontro é já um tempo elíptico, 

linha fechada, quase circular, veloz, a convergir para o centro

onde não há tempo por detrás do tempo

e já não faz sentido procurar.

Obrigada, Regina!

Daqui a dias, porei aqui os teus livros publicados.