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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O fascínio da Luz

Hoje fui à sessão do workshop sobre Ciência orientada pela Regina Gouveia. Estavam muito poucas pessoas, o que é pena, pois a sessão, ainda que sem grandes tecnologias - estas falham quando menos se espera - foi interessante e a hora e meia passou num instante.
Há coisas que nunca nos passam pela cabeça pois damo-las como garantidas. Uma delas é a de que temos luz durante grande parte do dia.

É tão importante sermos iluminados por um astro-rei que não falha, é tão fantástico que essa luz venha a uma velocidade inegualável, constante, há milhões de anos e que nos permita ver a natureza sempre diferente, conforme a hora, a intensidade, a metereologia, os nossos olhos, sei lá....
Sem lhe pedir licença, :) vou colocar aqui um poema que a Regina apresentou na sessão passada e que é espantoso.Ele traduz exactamente esta estupefacção perante o fenómeno da luz. Ouso acompanhá-lo dum quadro que fiz há um ano e ofereci ao meu irmão, onde se vê ( penso eu) como a luz ( e a sombra inerente) são vitais para enriquecer a beleza e poesia da paisagem.

Sombra

Desde o Big-Bang corre pelo espaço


sem aparentar o mínimo cansaço.


Não tem concorrente na corrida.


pelo que, de antemão, é a vencedora da partida.


Durante a já longa viagem,


foi criando vários laços na passagem


ao tornar iridescente o belo diamante


quando nele se reflecte e se refracta,


ao cobrir o mar de um manto cor de prata,


ao ruborizar o céu


à hora de alva e ao sol poente,


ao emprestar à lua um manto de luar,


ao tornar multicolor o céu e o mar,


ao brincar com a chuva, como se fora criança,


traçando no céu o arco da aliança,


ao espargir de cor a mãe natureza


que a ama com fervor, e a olha com enleio.


Misteriosa luz, lasciva, bela .


Através dos vidros da janela, vejo, projectada no passeio,


a indelével sombra dum longínquo amor.


Gouveia R, Sombra

OBRIGADA, REGINA!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Ciência, poesia, música e pintura


Fui hoje a um workshop no Espaço Vivacidade, dinamizado pela minha amiga Regina Gouveia, pessoa polivalente ( como as gaivotas), que consegue estar bem em todas a vertentes. No local onde se realizou o workshop, estava patente ao público uma exposição da própria que foi inaugurada no início do mês: Estados de Alma.

Gostei de estar ali uma hora e meia a ouvir e a ver sobre o tema : A Ciência ao alcance de todos. Nada sei sobre Ciência , a não ser aquilo que vou lendo nos jornais ou que oiço o meu filho falar. Tendo cientistas na família, sobretudo na área da medicina, enveredei pelas letras, embora sinta um certo fascínio pelas descobertas do Homem, principalmente, no campo da astronomia e da medicina. Gostaria de ter estudado melhor a Física, que é de todas as ciências a mais difícil de compreender, na minha opinião. A Regina torna as coisas simples e a música acompanha muito bem a explicação.
Assim sendo, umas sessões sobre Ciência acessíveis a qualquer um e adornadas com poemas e música relacionadas com os temas, tornam-se muito convidativas. Após a sessão ainda estive bastante tempo à conversa com o Pedro Freire, o meu Amigo do blogue Imago Mundi. Trocámos impressões sobre fotografia a ali ficaríamos se não se fizesse tarde.

Tirei algumas fotografias com o meu I Touch, pois não levei a máquina fotográfica, aos quadros expostos. A colecção é bem maior, mas não pude fotografar as aguarelas devido às luzes que se reflectem nos vidros. Aqui constam apenas os de acrílico sobre tela. Entretanto comprei um quadro cujo montante a Regina ofereceu a uma associação que ajuda pessoas com deficiências.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Cores em movimento - Somewhere over the rainbow


As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

Jorge Sousa Braga



Ontem foi um dia feliz para mim. E penso poder dizer para muitos dos que me rodearam e deram apoio numa festa em que o centro era ARTES.
Várias pessoas ligadas ao Espaço Vivacidade, entre as quais uma senhora pintora já famosa, colegas da Utopia, Amigos e Família estiveram presentes na sessão de encerramento da Exposição.

Preparei uns caderninhos com as fotografias das pinturas e dos poemas que iriam ser lidos e na Vivacidade, a infatigável Helda, a quem agradeço muito em especial, organizou um Powerpoint, em que cada slide correspondia a uma das pinturas, com registo do nome e do poema que se iria ler. Formalmente estava tudo preparado. Mas houve grande espontaneidade durante a sessão porque todo o discurso, o meu, sobretudo foi improvisado. A Adelaide começou por me fazer uma pergunta que não esperava: Como é que interrelaciona a pintura com a poesia?
Tudo o que disse me veio à mente na altura e agora já não seria possível repeti-lo com as mesmas ideias e palavras. Liguei a música ao poema, o poema à imagem e a imagem à pintura, que é como, em geral, olho para as Artes.
Ao escolher os poemas fi-lo criteriosamente, mas houve uns que talvez tenham ficado mais intrinsecamente ligados aos quadros, de tal modo que neste momento , quando penso no quadro, me vem logo o poema à mente. Acontece isso com os poemas da minha Amiga Regina Gouveia, cujos poemas são excelentes, não me canso de o afirmar. Também associei alguns do meu irmão Mário, que são duma simplicidade desarmante, e nos surpreendem - e muito - no final.

O mais belo da festa foi o meu neto. A sua presença, sentado á frente, pernas a baloiçar, poemas na mão, o soletrar cuidadoso - com 6 anos, está a aprender a ler e ainda há letras que desconhece - a sua insistência em ler em voz alta o poema Tudo é Poesia de Gedeão, a interpretação das peças no violino no final, sozinho ou acompanhado com a Mãe, comoveram-me tanto que as lágrimas me vieram aos olhos e o mesmo aconteceu com várias pessoas na sala. Obrigada, meu neto lindo!

Ficam aqui algumas das pinturas e poemas lidos. A Vida é muito Bela! Somewhere over the rainbow....



Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece. Não sei se suspenso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Porque fiz eu dos sonhos
A minha única vida?

Ricardo Reis

A Chama
Dançava a chama voluptuosa
espalhando em redor um tom vermelho-rosa
As achas ardiam na lareira
e a criança batendo as palmas, rindo,
dizia "lindo, lindo"
apontando a fogueira.

Era uma chama voluptuosa
e ao mesmo tempo etérea,
tudo por causa do plasma,
o quarto estado da matéria.

No plasma, com seus núcleos e iões
em estranhas convulsões electrões davam saltos quânticos.

Era a energia
que assim se emitia
em passos de dança, sensuais, românticos,

A criança que, batendo as palmas, rindo,
dizia "lindo, lindo",
adormeceu sorrindo.

E então a louca chama, pressentindo
que a criança já estava dormindo,
deu em esmorecer, foi-se extinguindo.

Regina Gouveia

Boletim metereológico


Sol posto
magenta, azul
cheiro a mosto
cheiro a Sul
vejo o teu rosto
na rosa dos ventos
sinto o teu gosto
na ponta do tempo


céu aberto, céu azul
Sol nascente
magenta, doirado
estou no presente
e vivo o passado
solto um lamento
redondo, fechado
Ah!, ilusão
de te ter a meu lado
céu cinzento, céu nublado.


Mário Cordeiro

Infinito

O que é o infinito?
Será um estado de alma
num dia de muita calma,
em que o ar fica parado
de tão sereno e tão quente?

Será um oito deitado
dos que vêm nas sebentas,
nos compêndios, nos opúsculos,
ou serão as tardes lentas
que precedem os crepúsculos?

Ou será o quociente
em toda e qualquer divisão,
sem indeterminação,
em que zero é o divisor?

Ou será um grande amor?
Ou será a imensa dor
sentida ao perder alguém?

Ou será a imensidão
do Universo em expansão?

Ou será mesmo o Além?
Será a suprema alegria
de ver um filho nascer?

Será talvez a magia
de ver a vida crescer?

O que é o infinito?
Talvez seja aquele grito
que eu tento a custo suster.


Regina Gouveia

quarta-feira, 17 de março de 2010

Evocação a Eugénio de Andrade





Sessão de evocação a EUGÉNIO DE ANDRADE

17/03/2010



A Árvore, o escultor José Rodrigues e o editor José da Cruz Santos promovem mais uma evocação do poeta de As Mãos e os Frutos, no dia 20 de Março de 2010, às 16h00, na sede da Cooperativa Árvore.


José Viale Moutinho irá falar dos poemas Elegia da Águas Negras para Che Guevara e outros epitáfios, que serão lidos pelo actor Júlio Cardoso.

Estará exposta a edição de Chuva sobre o rosto, poemas de Eugénio de Andrade à mãe, com vinte desenhos de Jorge Pinheiro.


No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade



Acrílico s/ tela- 2009