terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Bleu, bleu....l'amour est bleu
O quadro que fiz ontem traduz essa sensação: beleza táctil, jogo de azuis e verdes, sugestão floral. É repousante.
Mais um poema de Sophia:, que traduz os sentimentos expressos nesta pintura.
Quando brilhou a aurora,
dissolveram-se
Entre a luz as florestas encantadas,
Arvoredos azuis e sombras verdes,
Como os astros da noite embranqueceram
Através da verdade da manhã.
E encontrei um país de areia e sol,
Plano, deserto, nu e sem caminhos,
Aí, ante a manhã, quebrado o encanto,
Não fui sol nem céu nem areal,
Fui só o meu olhar e o meu desejo,
Tinha a alma a cantar e os membros leves
E ouvia no silêncio os meus passos.
Caminhei na manhã eternamente.
O sol encheu o céu, foi meio-dia,
Branco, a pique, sobre as coisas mortas,
Mais adiante encontrei a tarde líquida,
A tarde leve, cheia de distâncias,
Escorrendo de céus azuis e fundos
Onde as nuvens se vão pra outros mundos.
Um ponto apareceu no horizonte,
Verde nos areais, como um sinal.
Era um lago entre calmos arvoredos.
Não bebi a sua água nem beijei
O homem que dormia junto às margens
E ao encontro da noite caminhei.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Leonard Cohen - Old Ideas
Usei os seus poemas, as suas músicas e até as suas entrevistas nas aulas sempre com bom feedback dos alunos, que se comoviam ou vibravam comigo, mesmo quando, aparentemente, este tipo de música não era aquele que mais apreciavam.
O que é divinal encanta todos. E Leonard Cohen é genial.
Coloco aqui duas canções , uma antiga outra actual. A diferença na voz é incrível, mas comparando as duas, não sei de qual eu gosto mais, como diria o Marco Paulo:)).
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
O mar
É um daqueles temas que nunca recusaria. É-me imperioso ligar a existência do mar à minha própria existência como pessoa criativa. Adoro o mar, necessito dele quase como de oxigénio, não consigo viver longe dele, sinto-me bem a olhar para as ondas incansáveis, para os navios ao fundo, os surfistas, as crianças na areia, as gaivotas sentadas nas rochas, e adoro contemplar o brilho do sol na superfície azulada, verde ou cinzenta do oceano.
Tenho muitas pinturas sobre o mar - cerca de 40. Foi fácil arranjar um conjunto que se adaptasse aos poemas. Mais difícil foi fazer as fotografias em alta definição, mas consegui realizar isto tudo em dois dias.
A minha Leica entretanto tinha-me pregado um susto, pois não estava a funcionar. Hoje levei-a a uma casa que me aconselharam perto do Rivoli e um senhor muito prestável conseguiu o milagre de desbloquear a lente que tinha encalhado e não abria. Foi um alívio...
Aqui vão três pinturas sobre o mar. Poemas não ponho pois não sei se o meu irmão gostaria que eu abrisse mais o véu. Mas o livrinho não tarda...só para mais tarde recordar...
domingo, 3 de abril de 2011
DIA DO LIVRO INFANTIL

com predominância para os da Condessa de Ségur, que líamos vezes sem conta.
Mais tarde comecei a ler os Cinco, um primo meu ofereceu-me o primeiro quando fiz 10 anos. A Editorial Notícias publicava um de vez em quando e ele encarregava-se de nos oferecer os livros mal eles chegavam. Ás vezes havia bulhas lá em casa pois todos queríamos ler ao mesmo tempo. Um pouco mais tarde lia tb com agrado as biografias de cientistas e pessoas célebres nas colecções de Adolfo Simões Muller. Em adolescente já lia Pearl Buck, Berthe Bernage ( tão beata:)) e Júlio Diniz.Os meus filhos já tiveram outras leituras, embora a minha filha fosse muito tradicional e lesse quase tudo o que eu li. Ela propria comprou a colecção Azul novinha e ainda os livros da Anita, os da Enyd Blyton todos. Os meus filhos rapazes gostavam muito do Triangulo Jota e o Clube das Chaves e tb de Uma Aventura...mas o mais novo lia muito Banda Desenhada do Tintin, Asterix, Alix, Lucky Luck, biografias, livros sobre História de Portugal ( cor de laranja) e até vários livros com histórias da Bíblia, que ele adorava. Não tínhamos o hábito de lhes ler antes de irem para a cama, em geral ouviam música que eu punha a tocar no corredor junto ao quarto deles.
Os meus netos têm uma panóplia de livros em casa e todas as noites ouvem ler uns tres capitulos de uma história, quer pela Mãe ( que por vezes adormece antes deles) , o Pai ou eu , se calha lá estar. Querem ver os bonecos todos e acompanhar a leitura, é um momento muito doce ao fim do dia.
Queria aqui falar dos livros de poemas para crianças da minha amiga Regina Gouveia,

já vão em três e são muito belos para as crianças, pois juntam o amor pela ciência à poesia. A escritora e professora de Física tem-se desdobrado em workshops para crianças,
juntando a Física, a Astronomia e Ciencias, em geral, à Poesia , em escolas por esse país fora. Os testemunhos podem ser lidos no seu blogue Do Caos ao Cosmos e nos blogues das escolas que visitou.
Fica aqui um poema dela para s mais pequeninos:
Perguntaram à Maria
o que era a poesia
e a Maria respondeu:
É saber olhar o Céu,
ouvir as ondas do mar,
e sentir a maresia,
as aves a chilrear,
desde que o sol se levanta,
deixar a areia escapar
por entre os dedos da mão,
é saber ouvir o vento
que traz sempre uma mensagem
quando chega de viagem.
É acarinhar a terra,
cada animal, cada planta,
cada pedra, cada rio.
É cantar ao desafio com o melro,
o gavião, e também a cotovia,
o pardal , o rouxinol.
É saudar o arco-írisnum dia de chuva e sol
In Ciência para meninos em poemas pequeninos
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Floresta ao luar
Foi feito em MDF e mede 35x40 cm.
Fica aqui um poema de Sophia de Mello Breyner a propósito:
Bebido o luar
Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.
Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.
Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.
E já agora acrescento mais dois poemas enviados pelo meu irmão ( obrigada!) há minutos que parecem feitos para este quadro ou vice-versa...
Formas alvas dançam na escuridão em meus sonhos.
Por entre os galhos que rangem tristonhos
vem a luz da Lua visitar o chão
para ouvir as Árvores em sua noturna canção.
Que a noite, neste momento as reúna,
Que seus espíritos voem juntos no vento
e que seja infinito o tempo
enquanto não vem o dia,
que haja apenas a magia.
No cheiro das flores nesses ares,
Nos feixes de luz nua
Se sente o amor da Lua pelas Árvores,
Se sente o amor das Árvores pela Lua.
Filipe Torresi Rissetto
Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo.
Tudo é não ter nem encontrar.
Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.
Fernando Pessoa
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Cores em movimento - Somewhere over the rainbow

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.
E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.
As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».
É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.
Jorge Sousa Braga
Ontem foi um dia feliz para mim. E penso poder dizer para muitos dos que me rodearam e deram apoio numa festa em que o centro era ARTES.
Várias pessoas ligadas ao Espaço Vivacidade, entre as quais uma senhora pintora já famosa, colegas da Utopia, Amigos e Família estiveram presentes na sessão de encerramento da Exposição.
Preparei uns caderninhos com as fotografias das pinturas e dos poemas que iriam ser lidos e na Vivacidade, a infatigável Helda, a quem agradeço muito em especial, organizou um Powerpoint, em que cada slide correspondia a uma das pinturas, com registo do nome e do poema que se iria ler. Formalmente estava tudo preparado. Mas houve grande espontaneidade durante a sessão porque todo o discurso, o meu, sobretudo foi improvisado. A Adelaide começou por me fazer uma pergunta que não esperava: Como é que interrelaciona a pintura com a poesia?
Tudo o que disse me veio à mente na altura e agora já não seria possível repeti-lo com as mesmas ideias e palavras. Liguei a música ao poema, o poema à imagem e a imagem à pintura, que é como, em geral, olho para as Artes.
Ao escolher os poemas fi-lo criteriosamente, mas houve uns que talvez tenham ficado mais intrinsecamente ligados aos quadros, de tal modo que neste momento , quando penso no quadro, me vem logo o poema à mente. Acontece isso com os poemas da minha Amiga Regina Gouveia, cujos poemas são excelentes, não me canso de o afirmar. Também associei alguns do meu irmão Mário, que são duma simplicidade desarmante, e nos surpreendem - e muito - no final.
O mais belo da festa foi o meu neto. A sua presença, sentado á frente, pernas a baloiçar, poemas na mão, o soletrar cuidadoso - com 6 anos, está a aprender a ler e ainda há letras que desconhece - a sua insistência em ler em voz alta o poema Tudo é Poesia de Gedeão, a interpretação das peças no violino no final, sozinho ou acompanhado com a Mãe, comoveram-me tanto que as lágrimas me vieram aos olhos e o mesmo aconteceu com várias pessoas na sala. Obrigada, meu neto lindo!
Ficam aqui algumas das pinturas e poemas lidos. A Vida é muito Bela! Somewhere over the rainbow....

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece. Não sei se suspenso em tudo
Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.
Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Porque fiz eu dos sonhos
A minha única vida?
Ricardo Reis

A Chama
Dançava a chama voluptuosa
espalhando em redor um tom vermelho-rosa
As achas ardiam na lareira
e a criança batendo as palmas, rindo,
dizia "lindo, lindo"
apontando a fogueira.
Era uma chama voluptuosa
e ao mesmo tempo etérea,
tudo por causa do plasma,
o quarto estado da matéria.
No plasma, com seus núcleos e iões
em estranhas convulsões electrões davam saltos quânticos.
Era a energia
que assim se emitia
em passos de dança, sensuais, românticos,
A criança que, batendo as palmas, rindo,
dizia "lindo, lindo",
adormeceu sorrindo.
E então a louca chama, pressentindo
que a criança já estava dormindo,
deu em esmorecer, foi-se extinguindo.
Regina Gouveia
Boletim metereológicoSol posto
magenta, azul
cheiro a mosto
cheiro a Sul
vejo o teu rosto
na rosa dos ventos
sinto o teu gosto
na ponta do tempo
céu aberto, céu azul
Sol nascente
magenta, doirado
estou no presente
e vivo o passado
solto um lamento
redondo, fechado
Ah!, ilusão
de te ter a meu lado
céu cinzento, céu nublado.
Mário Cordeiro

Infinito
O que é o infinito?
Será um estado de alma
num dia de muita calma,
em que o ar fica parado
de tão sereno e tão quente?
Será um oito deitado
dos que vêm nas sebentas,
nos compêndios, nos opúsculos,
ou serão as tardes lentas
que precedem os crepúsculos?
Ou será o quociente
em toda e qualquer divisão,
sem indeterminação,
em que zero é o divisor?
Ou será um grande amor?
Ou será a imensa dor
sentida ao perder alguém?
Ou será a imensidão
do Universo em expansão?
Ou será mesmo o Além?
Será a suprema alegria
de ver um filho nascer?
Será talvez a magia
de ver a vida crescer?
O que é o infinito?
Talvez seja aquele grito
que eu tento a custo suster.
Regina Gouveia
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Cor em Movimento - Quadros de uma exposição

Hoje termina a exposição, que até agora, mais prazer artístico, espiritual e social me deu. Logo haverá uma sessão em que todos os "ingredientes" me são queridos desde os poemas de poetas conhecidos e da família que escolhi, recitados pela minha Filha Luisa, a minha Amiga Regina e a organizadora do Espaço e minha Amiga também Adelaide, até ao som do violino e da flauta tocados pelo meu Neto Daniel e pela minha Nora, Ana. A todos agradeço já agora do coração.
Muitas outras exposições se irão seguir, a começar já no dia 10 no 10º Aniversário do Spazo Zen., aqui no Campo Alegre.
Sinto uma enorme felicidade em poder mostrar aos outros aquilo que faço, aquilo de que gosto. Oxalá seja também para quem vê uma fonte de prazer estético e espiritual.
Fica aqui uma peça musical muito bela e majestosa chamada : Quadros para uma Exposição do compositor russo Mussorgsky tocado pelo jovem Evgeny Kissin numa interpretação vibrante muito pessoal:
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Daffodils
Em Inglaterra encontram-se por toda a parte, enchem os campos com a sua leveza e cor dourada. São flores singelas, muito belas, que mereceram da parte dos poetas ingleses grande enlevo.
Vão aqui uma foto tirada há dias no Hyde Park de Leeds e um dos poemas mais conhecidos de William Wordsworth, o poeta romântico do Lake District. Quem o recita é um dos meus actores ingleses favoritos, Jeremy Irons
"Daffodils" (1804)
I WANDER'D lonely as a cloud
That floats on high o'er vales and hills,
When all at once I saw a crowd,
A host, of golden daffodils;
Beside the lake, beneath the trees,
Fluttering and dancing in the breeze.
Continuous as the stars that shine
And twinkle on the Milky Way,
They stretch'd in never-ending line
Along the margin of a bay:
Ten thousand saw I at a glance,
Tossing their heads in sprightly dance.
The waves beside them danced; but they
Out-did the sparkling waves in glee:
A poet could not but be gay,
In such a jocund company:
I gazed -- and gazed -- but little thought
What wealth the show to me had brought:
For oft, when on my couch I lie
In vacant or in pensive mood,
They flash upon that inward eye
Which is the bliss of solitude;
And then my heart with pleasure fills,
And dances with the daffodils.
By William Wordsworth (1770-1850).
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sábado, 20 de março de 2010
DIA MUNDIAL DA ÁRVORE
quarta-feira, 17 de março de 2010
Evocação a Eugénio de Andrade


Sessão de evocação a EUGÉNIO DE ANDRADE
17/03/2010
A Árvore, o escultor José Rodrigues e o editor José da Cruz Santos promovem mais uma evocação do poeta de As Mãos e os Frutos, no dia 20 de Março de 2010, às 16h00, na sede da Cooperativa Árvore.
José Viale Moutinho irá falar dos poemas Elegia da Águas Negras para Che Guevara e outros epitáfios, que serão lidos pelo actor Júlio Cardoso.
Estará exposta a edição de Chuva sobre o rosto, poemas de Eugénio de Andrade à mãe, com vinte desenhos de Jorge Pinheiro.
No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.
Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;
Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;
Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade

Acrílico s/ tela- 2009
domingo, 17 de janeiro de 2010
Tinta a transbordar
"Estás a mentir", diria o meu neto, com um sorriso....ou "Estás a ser irónica", como já disse uma vez à Mãe, quando ela comentou que tinha três filhos rapazes e que "era uma alegria".
Gravei há tempos uma fotografia de que gostei bastante, em que se usava o photoshop para conseguir um efeito especial. Resolvi transformá-la numa tela. Não sei se o efeito é o mesmo, mas que ficou especial, lá isso ficou!!

E como não sei fazer poemas, transcrevo aqui um longo, mas belo de Fernanda de Castro:
Não fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa.
Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.
Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.
Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.
Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.
Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.
Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.
Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,
Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.
Fernanda de Castro, in "Trinta e Nove Poemas"
domingo, 29 de novembro de 2009
Ainda os musicais: CATS ( dedicado à minha Amiga Maria do Céu que adora gatos)

Dantes ninguém ia a Londres, Paris ou NY que não tentasse ver um musical dos mais apetecíveis, comprando os bilhetes nas agências, visto que nos teatros já não os havia e o mercado negro abundava. Lembro-me de ter ido ver alguns em Londres - Jesus Christ Superstar, que não me entusiasmou nada, apesar de ser dos mais populares de A.L.Webber, Hair - um dos mais carismáticos de sempre, devido à mensagem de paz e "make love not war", típica dos Sixties e do movimento hippie. E ainda o Fantasma da Ópera, de que já falei.
Mas há um musical que nunca mais esquecerei - nunca se esquece a música que nos toca fundo - não só pela performance a que assisti em Londres, mas também pela companhia que levei, ou que me levou e pela repercussão que este musical teve e tem na minha vida. Eu, que nem tenho gatos!!
Falo-vos de CATS, o musical composto a partir do fabuloso livro de T.S.Eliot, traduzido em português pelo meu saudoso professor João Almeida Flor da FLUL.

Fui ver este musical em 1993 com os meus filhos, que ficaram de tal maneira empolgados que não descansaram enquanto não convenceram o professor de Música do Colégio Alemão a coreografá-lo e a pô-lo em cena nos anos 90, interpretado pelos alunos vestidos de gatos. Fui eu que pintei o fato do meu filho - uma T-shirt preta e calças de desporto pretas, todas pintadas com riscas douradas, prateadas e brancas. As tintas cheiravam mal , mas o "actor" aguentou-se bem. A minha filha levava peles de gato pregadas ao fato e suava em bica, mas nada disso a afectou.
Este musical ainda foi levado a Barcelona, Bilbau e a outras escolas do Porto, com grande destaque ( modéstia aparte) para o meu filho que não só cantava e dançava, como tocava flauta a acompanhar o celebérrimo Memory..

Fui professora de Inglês da Escola Profissional de Música durante dois anos e o programa de Inglês de 10º e 11º anos era feito em grande parte pelos professores, pelo que resolvi usar os poemas de Eliot, as letras e a música de Cats para os motivar e comparar com uma ópera clássica de Purcell : Dido and Aeneas. Comparar Memory com o Lamento de Dido, não lembra ao diabo, mas resultou em pleno.
Foram das aulas mais entusiasmantes que dei na minha vida e nunca esquecerei os alunos pelos quais nutria uma enorme simpatia e até admiração, apesar de alguns serem fraquinhos a Inglês. Quando os encontro agora, ainda se lembram dessas aventuras pelo mundo da música inglesa.
Durante anos ouvi os Cats regularmente. Depois deu-se um hiato de mais de uma década em que pouco ouvia musicais, até que chegou a hora dos meus netos nos anos 2005-6-8. Não tendo nunca visto o verdadeiro CATS, eles conhecem o musical através de extractos do Youtube, cantam e dançam como verdadeiros gatos. É comovente para uma avó ver estas tradições passarem dos filhos para os netos, cantados e dançados por pais e filhos com a mesma força e garra.
Em memória desses momentos tão intimamente ligados ao foro familiar e a minha vida profissional, vai aqui um vídeo de Cats, o mais querido dos meus netos e o meu também, afinal.
A letra vai encurtada, devido ao seu tamanho. Só transcrevo as estrofes absolutamente geniais do poema e não os refrões.
JELLICLE CATS
Are you blind when you're born? Can you see in the dark?
Can you look at a king? Would you sit on his throne?
Can you say of your bite that it's worse than your bark?
Are you cock of the walk when you're walking alone?
Because Jellicles are and Jellicles do
Jellicles do and Jellicles would
Jellicles would and Jellicles can
Jellicles can and Jellicles do
When you fall on your head, do you land on your feet?
Are you tense when you sense there's a storm in the air?
Can you find your way blind when you're lost in the street?
Do you know how to go to the Heaviside Layer?
Can you ride on a broomstick to places far distant?
Familiar with candle, with book and with bell?
Were you Whittington's friend? The Pied Piper's assistant?
Have you been an alumnus of heaven or hell?
We can dive through the air like a flying trapeze
We can turn double somersaults, bounce on a tire
We can run up the wall, we can swing through the trees
We can balance on bars, we can walk on a wire
Can you sing at the same time in more than one key
Duets by Rossini and waltzes by Strauss
And can you (as cats do) begin with a C
That always triumphantly brings down the house
Jellicle cats are queen of the nights
Singing at astronomical heights
Handling pieces from the Messiah
Hallelujah, angelical choir
The mystical divinity of unashamed felinity
Round the cathedral rang "Vivat!"
Life to the everlasting cat!
Practical cats, dramatical cats
Pragmatical cats, fanatical cats
Oratorical cats, delphioracle cats
Skeptical cats, dispeptical cats
Romantical cats, pedantical cats
Critical cats, parasitical cats
Allegorical cats, metaphorical cats
Statistical cats and mystical cats
Political cats, hypocritical cats
Clerical cats, hysterical cats
Cynical cats, rabbinical cats
There's a man over there with a look of surprise,
As much as to say, "Well now how about that!"
Do I actually see with my own very eyes
A man who's not heard of a Jellicle cat?
What's a Jellicle cat? What's a Jellicle cat?
Infelizmente não encontro o meu livro com a tradução que muito gostaria de vos apresentar.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
À minha amiga Regina ...e com ela também


Reencontrei a Regina após uns três anos de ausência. Está igual a si própria, continua a falar muito depressa como se fosse já atrasada para apanhar o comboio,mas mantém a mesma serenidade e simplicidade que me fizeram admirá-la mais do que a muitas outras colegas da minha escola.
Andamos no atelier "Utopia" - que felizmente é uma realidade às 3ª e 5ª - convivemos e aprendemos a pintar. Hoje foi pastel, há dias acrílico, para mim é tudo encantamento e quanto mais sei disto, mais me apetece saber. Acho que perdi anos da minha vida a fazer malha, quando poderia ter estado a criar algo mais belo.
Há dias fiz estes dois abstractos. A Regina pediu-me numa entrada abaixo que vos mostrasse aqui o trabalho feito. Decidi fazê-lo, mas não sem colocar dois poemas dela - um deles ainda não publicado - a acompanhar a "obra". Esta entrada é das duas. E oxalá signifique o retorno a uma amizade forever.
Cores outonais
O muro de xisto é já uma ruína mas a vinha,
velha e tão cansada,
exibe de novo os seus tons outonais.
Numa subtil gradação de frequências
a folhagem é agora amarelada, acobreada,
cor de vinho, acastanhada.
Ostentam cores outonais também, mais além,
a pereira e o marmeleiro.
Enquanto transferências de electrões
desencadeiam oxidações e reduções,
carotenos e antocianinas
conjugam-se em paisagens quase surreais.
Sentada numa fraga, ao lado de um sobreiro,
quero perpetuar estes instantes,
transformar em eterno este momento,
mas o agora de há pouco já é antes,
nesta implacável corrida do tempo.
Magnetismo Terrestre - 2006
Poalha etérea
No labirinto da memória
uma imagem perdida.
Uma imagem fugaz, discreta.
No bastidor, esticado, o alvo linho
de onde em onde maculado
por um bordado azul,
o azul do mar de Creta.
Não sei se era lençol, se era toalha
Na memória, apenas o bordado azul
e a brancura do linho.
Tudo o mais se esfumou
numa poalha etérea,
não sei se onda se matéria,
que o tempo dispersou.
Regina
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Batem leve, levemente...
Hoje resolvi pintar o inverno, a paisagem fria e agreste, com tanto de belo como de misterioso. Foi a guache e pastel.
Vai o poema também a lembrar esses velhos tempos.

Batem leve, levemente
Como quem chama por mim.
Será chuva, será gente?
Gente não é certamente
E a chuva não bate assim.
É talvez a ventania
Mas ainda há poucochinho
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia dos pinheiros do caminho.
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
. e cai no meu coração.
Augusto Gil
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Regina Gouveia

A Regina foi minha colega na Escola Carolina Michaelis e, embora ela leccionasse Física-Química e eu Inglês, a nossa vivência da escola e sobretudo, a nossa carolice e motivação - muito antes desta era socrática - aproximou-nos.
O feitio dela não era muito parecido com o meu. Ela era muito mais interveniente e eu mantinha quase sempre low profile. Ainda me lembro de Conselhos Pedagógicos em que a Regina estava do contra e falava tão depressa que ninguém compreendia o que ela dizia. Mas tinha razão:)
A Regina tem costela transmontana e isso nota-se muito nela. Vivi dois anos em Chaves e sei como eles são, raçudos, inteligentes e sensíveis, pessoas diferentes. Sempre achei extraordinário o seu jeito de mãos, fazia camisolas e casacos lindíssimos em lãs diversas e andava sempre com cachecois, pois tremia de frio nos laboratórios de Física. As joias simples que usava - e que se podem ver na foto acima - eram feitas de objectos que encontrava, conchas, pedaços de pedra, que ela moldava e tornava uma obra unica.
Ficámos amigas. Pura empatia, eu que não tinha muitas amigas na escola, ela que era mais popular, muito admirada, mas bastante reservada. Descobrimos, há dias, que ambas nos aposentámos um pouco pelas mesmas razões - ela com 39 anos de ensino e 22 de orientação de estágio, eu com 37 e 16 de orientação. A Regina, porém, está muitos furos acima, tirou um Mestrado em Educação, trabalhou na Universidade do Porto e recebeu vários prémios, um dos quais o Prémio Rómulo de Carvalho, professor que, por coincidência, o foi do meu irmão Mário no Pedro Nunes e meu colega durante o ano de estágio e, alem do mais, o grande Poeta António Gedeão.
A Regina começou a pintar num atelier, como eu. Mas também publica livros e faz poemas para adultos e para crianças, que eu não faço, nem nunca fiz.
Daí eu querer prestar-lhe esta pequena homenagem, num blogue dedicado às artes divulgando alguns dos seus poemas. Não consegui fazer o upload das pinturas que ela me mandou em word, mas em breve o farei.
Aqui estão:
Silêncio branco
Nos enredos da memória, por entre o silêncio branco,
vão desfilando sombras de mil vozes e penumbras de mil cores,
as palavras não ditas e as reditas, a luz que o orvalho dispersou,
os murmúrios do mar e os sussurros do vento,
o reverso do tempo que eu tento aprisionar
no búzio que a maré aqui deixou.
Andante
Em Agosto, o sol rubro ao poente
antecipando um dia muito quente
e o alegre canto da cigarra
que a morna brisa acalentava,
faziam o poema.
Em Novembro, as cores outonais
das folhas, bailarinas surreais
que caídas no fim do seu tempo
bailavam ao sabor do vento,
faziam o poema.
Em Dezembro, o crepitar da lareira
e o manto branco na ladeira,
emprestando um ar de fantasia
a um natal pleno de magia,
faziam o poema.
Em Maio, o campo com seu ar de festa
exalando um subtil odor a giesta
e o rubro das papoilas nas searas,
contrastando com tímidas flores claras,
faziam o poema.
O poema estava ali,
não precisava de palavras.
Procuro o tempo
Procuro o tempo por detrás do tempo.
Procuro um tempo, linha aberta, não sei se parábola, se recta,
fluindo em direcção ao infinito.
Procuro o tempo por detrás do tempo
mas o que encontro é já um tempo elíptico,
linha fechada, quase circular, veloz, a convergir para o centro
onde não há tempo por detrás do tempo
e já não faz sentido procurar.
Obrigada, Regina!
Daqui a dias, porei aqui os teus livros publicados.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
EXPO: Seasons come, seasons go




Aqui podem ver alguns dos quadros que constam da colecção:
Também podem ver aqui aqui um dos poemas dos vários associados aos quadros em questão.
Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.
Sophia de Mello Breyner
Se lá forem não se esqueça de assinar o livro de presenças!









