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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Underwater 2

Pintar o fundo do mar é um dos meus temas preferidos e dos primeiros que criei.

Hoje voltei ao tema num quadrinho mais pequeno, com impasto para dar alguma rugosidade e saliências. Adorava merguhar com óculos e barbatanas quando tinha idade para isso, sem nunca me afastar da superfície, mas vendoo azul transparente, os ocres e brancos das rochas, os tons mais escuros das sombras....gostava que as minhas cinzas fossem um dia deitadas ao mar ou ficassem lá perto, junto à palmeira da minha Avó na Luz.

Um poema ao mar, sem o qual a vida seria difícil.

Viver na Beira-Mar

Nunca o mar foi tão ávido
quanto a minha boca. Era eu
quem o bebia. Quando o mar
no horizonte desaparecia e a areia férvida
não tinha fim sob as passadas,
e o caos se harmonizava enfim
com a ordem, eu
havia convulsamente
e tão serena bebido o mar.


Fiama Hasse Pais Brandão, in "Três Rostos - Ecos"

segunda-feira, 12 de abril de 2010

La noche en la Isla - Pablo Neruda

Toda la noche he dormido contigo
junto al mar, en la isla.
Salvaje y dulce eras entre el placer y el sueño,
entre el fuego y el agua.

Tal vez muy tarde
nuestros sueños se unieron
en lo alto o en el fondo,
arriba como ramas que un mismo viento mueve,
abajo como rojas raíces que se tocan.

Tal vez tu sueño
se separó del mío
y por el mar oscuro
me buscaba
como antes
cuando aún no existías,
cuando sin divisarte
navegué por tu lado,
y tus ojos buscaban
lo que ahora
—pan, vino, amor y cólera—
te doy a manos llenas
porque tú eres la copa
que esperaba los dones de mi vida.

.


He dormido contigo
toda la noche mientras
la oscura tierra gira
con vivos y con muertos,
y al despertar de pronto
en medio de la sombra
mi brazo rodeaba tu cintura.
Ni la noche, ni el sueño
pudieron separarnos.

He dormido contigo
y al despertar tu boca
salida de tu sueño
me dio el sabor de tierra,
de agua marina, de algas,
del fondo de tu vida,
y recibí tu beso
mojado por la aurora
como si me llegara
del mar que nos rodea.



Pablo Neruda

quarta-feira, 31 de março de 2010

Underwater 2

No fim de semana, voltei ao fundo do mar....na minha imaginação, claro.

Pode ser que um dia o possa ver na realidade, para já fico-me pela ânsia, o looking forward to. Já não é mau, pois daí advém a felicidade.



Um poema de Sophia para acompanhar o sonho.

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I

segunda-feira, 22 de março de 2010

Underwater

Apesar de ontem ser o primeiro dia de Primavera e de estar um dia glorioso, quente e sem nuvens, deu-me para ficar em casa toda a tarde. Tinha vontade de fazer bolos - fiz uma tarte de leite condensado que os meus filhos adoram - de estar sossegada a ler as cartas de Van Gogh a seu irmão, olhar para as suas telas todas tão apelativas e sensuais. Estive sozinha umas três horas.
Subitamente deu-me vontade de pintar. Fui buscar uma tela grande, pu-la em cima da mesa da cozinha e cobri-a de verde misturado com azul, em degradés mais escuros , mais claros. Foi assim que começou. Depois usei vermelho vivo misturado com amarelo e rosa, de modo a obter uma cor viva salmão e derramei por cima do verde que já tinha secado, com uma palhinha expeli tinta para mais longe de modo a formar desenhos exoticos e com dois pinceis fiz umas algas fininhas e transparentes que se atravessavam pelo mar adentro. Mais tarde acrescentei mais uma mistura, desta feita com amarelo e ocre, de modo a ficar espesso e derramei no canto, formando pingas que salpiquei pelo quadro todo, como tinha feito com o vermelho. Com os pinceis, desenhei formas leves e dansantes, que se espalharam pela tela até cima. Usando tinta esbranquiçada, ainda fiz umas penugens leves, daquelas que se vêem nas fotos do fundo do mar.

O resultado foi este.


Sempre sonhei em mergulhar com garrafas na Praia da Luz e nunca consegui fazê-lo. Limito-me a nadar com óculos e tubinho não muito longe da costa. Nunca vi o fundo do mar como queria. Esta pintura não passa de "wishful thinking".