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domingo, 25 de março de 2012

O primeiro concerto de Beethoven

Depois duma curta brincadeira no pátio da minha casa com a nova coqueluche dos miúdos - os populares Bey-Blades, espécie de piões que giram dentro duma pista tipo alguidar e travam lutas entre si até um parar, voltei a casa e sintonizei o BRAVA HD, novo canal de Musica Clássica.

Maravilha. KISSIN no seu melhor. Mais velho, com a cabeleira ainda mais alta ( tipo toucado do Nicolau Tolentino, lembram-se?), todo vestido de branco, com o seu "blackitie", tocando o primeiro concerto de Beethoven, o mais mozartiano dos seus concertos, mas já com muita da garra beethoveniana.

Sentimento, subtileza e clareza, mas não a magia do meu querido Sokolov. Este menino bonito, que foi considerado um génio em criança, já não nos faz parar como dantes. Reconheço-lhe talento, quem sou eu , afinal , para pôr em causa a sua genialidade? As notas saem alegres, vivaças, ritmadas, mas não tão leves como eu desejaria.
Também pode acontecer que isso se deva à gravação, que, na TV nunca é tão boa.

Este concerto é electrizante, duma jovialidade excepcional, faz-me lembrar alguns de Saint-Saens, com leitmotifs pujantes, sopros intervenientes, contracenando com o piano, numa troca de mimos vibrante.

O meu neto entrou hoje num concurso de piano em Vila Praia de Ancora e ganhou o prémio de interpretação, o que me orgulha muito. Não é um Kissin, a sua especialidade é o violino, mas o que sei é que ele pôe sentimento em tudo o que faz e isso é o mais importante. Os seus pianíssimos e fortissimos destacam-se, a virtuosidade já se nota desde pequeno.

A orquestra entusiasma-se neste final do 3º andamento. Os dedos de Kissin deslizam, cavalgam, saltitam ao ritmo dos violinos e clarinetes. Briilhante. Aplausos e Bravos estrondosos. Bendita BRAVA HD, que me permite estar numa sala de concertos sem sair de casa.

Instado pelas ovações, Kissin senta-se de novo e toca um Nocturno de Chopin. Lindo.

Como gostaria de ter a minha Mãe aqui junto a mim.Passam por mim névoas de memórias caladas , mas não adormecidas, momentos sublimes em família, ouvindo Chopin, as cortinas da janela estremecendo ao som e vibração do piano, a calmaria das tardes na nossa grande casa, onde se respeitavam estas horas de recolhimento e sossego espiritual.

Perante a insistência do publico entusiasmado, Kissin toca agora a Valsa Brilhante de Chopin.
Ó minha Mãe, vejo-a a si, sentada ao piano, desculpando-se por qualquer falha e pela falta de domínio das teclas insubordinadas...nostalgia da infância, gratidão e emoção, tudo junto. A certeza de que enquanto viver, nunca hei-de esquecer.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Casa da Música- O génio de SOKOLOV

Sempre tive uma ternura especial pela Casa da Música.

Ao princípio até considerava quase magia, como é que um meteorito tinha aterrado naquela praça
tão familiar para mim e continha tanto encanto.

Ouvir música ao vivo era quase uma memória do passado, embora tenha apoiado e ido a muitos concertos da antiga Regie Symphonie, no tempo em que eles tocavam em S. Bento da Vitória ou esporadicamente na Igreja da Lapa. Dei-me com vários músicos estrangeiros da orquestra e assisti ao seu último concerto na Foz Velha, antes de se tornarem Orquestra do Porto. Dava aulas de Inglês na Escola Profissional de Música, que durou poucos anos, e lá conheci alguns desses músicos, num ambiente fraternal e extremamente raro aqui no Porto. Uma das flautistas, australiana, foi professora e amiga do meu filho mais velho e ainda hoje ele visita-a na Bélgica, onde ela vive.
A Casa da Música deve ter parecido àqueles excelentes
instrumentistas uma dádiva caída do Céu, pois estavam habituados a tocar em locais diversos, sem ter uma sala condizente com a sua categoria.
Nunca esquecerei o primeiro concerto que ouvi na CdM. Tocaram a Sinfonia nº 2 de Mahler - Ressureição - com o Coro Gulbenkian e solistas excelentes. Comovi-me tanto com o evento que quando saí, telefonei ao meu filho que estava em Munique e desfiz-me em lágrimas de alegria. Tínhamos uma sala de concertos, linda de morrer, com 1400 lugares, uma acústica excepcional, bilhetes acessíveis, salas topo de gama e uma orquestra razoável. Tudo novo para mim.

Mal eu sabia que ali iria ouvir o pianista mais brilhante deste tempo, Grigory Sokolov, considerado o maior pianista vivo por muitos melómanos. Ouvi-o há dois anos e ouvi-o ontem, de novo, num concerto memorável que terminou com 7 encores, qual deles mais vibrante e sentido.

Sokolov não é deste mundo, quando se senta ao piano,
inclinado sobre as teclas, o mundo pára, o siêncio é absoluto e só se ouvem os sons multifacetados em catadupa, numa harmonia quase divina.
Era capaz de o ouvir durante uma noite inteira, o concerto durou três horas aproximadamente...e ninguém queria arredar pé, embora fosse Domingo e houvesse trabalho no dia seguinte. Rameau, Mozart, Brahms - tudo peças que desconhecia numa perfeição total.

Saí de lá mais rica e feliz, o meu filho também. Aprecio todos os momentos assim com ele, há uma grande cumplicidade entre nós. A música clássica sempre foi o elo mais forte que nos une.

Ficam aqui duas peças tocadas por este extra-terrestre musical, uma em recital, outra com orquestra. Os seus dedos não se apoiam nas teclas, flutuam...e o som sai por milagre.



sábado, 17 de março de 2012

Alfred Brendel , Claude Abbado e Beethoven

Oiço-os no MEZZO. 3º Concerto de Beethoven. Êxtase . Emoção. Harmonia. Sensibilidade. Sintonia perfeita.

Tantas vezes ouvi este concerto na minha casa da infãncia ou em casa dos meus avós, junto ao rádio sempre sintonizado para a Emissora 2, que o meu Avô adorava à falta de um gira-discos ou grafonola. Nunca os teve, embora fosse um amante incondicional dos grandes clássicos e românticos e das óperas italianas. Comecei a ir a concertos no Coliseu aos dez anos e era já com emoção que me deixava impregnar deste amor à música, sem a qual a minha vida seria tão mais cinzenta e ausente.

Os dedos percorrem as teclas e adivinho o som que vai sair, prevejo a tonalidade sonora, antecipo a pausa, deslizo com as escalas, embalo-me na orquestra e sob a batuta do maestro.

O ambiente é divinal. Brendel está velhinho,
os seus óculos tremem assim como o seu cabelo branco, mas os dedos não falham um trilo, um bemol ou sustenido. Tocar assim deve encher uma vida. E enriquecer a dos outros.

O Allegro salta como um adolescente aventureiro depois do adágio melancólico e pausado. Tudo vibra, os músicos seguem as notas que sabem de cor, tantas vezes já tocaram este concerto.
Brendel toca a cadenza, a orquestra espera ansiosa pelo remate final. Os sopros dão um ar da sua graça ou não fosse esta obra de Beethoven. Suspense , os violoncelos criam a expectativa em tom plangente, logo seguidos pelos violinos. Pizzicatos em surdina preparam a apoteose final.Abbado sorri, as trompetes sorriem também. E os clarinetes e as trompas....acompanham o sorriso dos dedos de Brendel. Perfeição no écran.

Fica aqui um video (com outros intérpretes) para comprovarem esta maravilha. Se Beethoven não tivesse vivido, o mundo da música seria menos surpreendente e nós muito mais pobres.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Chopin

Já gostei mais deste compositor, que é eterno, talvez aquele que todos os melómanos consideram único no que se refere a música de piano. Não há pianista que não toque uma valsa, uma balada, um nocturno ou estudo. O garnde Sokolov, que ouvi aqui na Casa da Músca, tocou várias peças inolvidáveis.

O que noto ao ouvir programas no MEZZO, como agora,  é que há pianistas que tornam esta musica empolgante, romântica, comovente...outros que batucam as notas todas - e são tantas - sem alma, tornando as peças monótonas e vulgares. O performer é essencial em Chopin.

Qundo era pequena, lembro-me da minha Mãe tocar chopin depois do almoço, quando havia mais silêncio na casa. O sol entrava pela janela da sala, aberta para a varanda no verão, o ambiente era tão calmo e belo...recordo a grande valsa brilhante e os estudos. Subitamente, ela deixou de tocar piano, não sei quando foi, talvez estivesse cansada de nos ouvir matraquear durante as aulas ou talvez porque o piano foi irradiado para uma sala no r/c onde fazíamos as nossas brincadeiras e que dava directamente para o jardim. Nunca percebi porque é que ela não mais tocou.
Quando mudámos de casa em 71, o piano foi para o meu quarto e da minha irmã, que era a grande painista na altura, fez exames no Conservatório e era considerada a musical da família, sem nenhuma razão especial, quanto a mim. Todos nós gostávamos de música, ouvíamos da manhã atá á noite, íamos a concertos, óperas, etc.  O facto de não tocar não significa que se não aprecie música com alma.

Ainda agora vi um anúncio com o 2º andamento do concerto nº 23 de Mozart, que é excepcional, e que coloco aqui para se ver beleza, mesmo na publicidade.

Chopin é já um pouco História, passado, algo que me fica na memória....esta melodia de Mozart, que o meu Pai adorava, ainda me faz virem as lágrimas aos olhos.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Mitsuko Ushida

Ligo para o Mezzo, depois de ter pendurado roupa, arrumado roupa, dobrado roupa....enfim tratado do que é meu e que urge meter nas gavetas ou nos armários.Tarefa pouco interessante, para não dizer entediante. Sento-me na sala e ligo a TV - MEZZO, claro.
Petrifico ao ouvir os acordes de piano, algo conhecido, tão querido aos meus ouvidos que imediatamente carrego no som e olho para as imagens para ver quem me adoça assim este pedaço da tarde.
É ela, a espantosa pianista Mitsuko Ushida que ouvi há dois anos aqui na Casa da Música a tocar sonatas de Beethoven duma forma arrebatadora. Toca o Concerto nº 4 de Beethoven, o preferido do meu Pai, que ele ouvia vezes sem conta. Esta artista é única, espantosa, que me dera que voltasse ao Porto. Naquela tarde, a plateia rendeu-se , todos aplaudiram de pé. Expansiva e temperamental, uma figura eloquente ao piano.Mitsuko Ushida, um nome que nunca mais se esquece.

Obrigada pela oferta, Mezzo...já ganhei o dia.

Aqui fica um excerto do concerto:

sexta-feira, 11 de março de 2011

Concertos

Como recompensa de um dia bastante atribulado, cheio de peripécias e sobressaltos daqueles que não se comparam nem numa milionésima de hipóteses com o que os Japoneses estão a sofrer neste momento, depois dum tsunami e abalo de terra colossais, resolvi sentar-me e tentar o MEZZO.

JACKPOT! Um concerto tocado pela melhor pianista do mundo, na minha modesta opinião: Martha Argerich
: Concerto de Schumann em lá menor, opus 64, para piano, o único dele para esse instrumento, maravilhoso e romântico, deixa-nos a sonhar e a desejar mais e mais.

Ouvi este concerto tocado pelo nosso Pedro Burmester ainda na Igreja de são Bento da Vitória, quando não havia Casa da Música, e eu conhecia alguns dos executantes da orquestra do Porto - nessa altura Regie Symphonie, que eram meus colegas na Escola Profissional de Música onde ensinei Inglês durante dois anos. Uma delas, Wendy Quinlan, que foi professora de flauta do meu filho, deixava-nos sempre bilhetes grátis na bilheteira e marcava os primeiros bancos para mim e filhos. Uma mordomia, que nunca me soube demais, pois a igreja nunca enchia. Era mesmo amiga deles e depois dos concertos , por vezes, íamos ao antigo Café dos Clérigos comer bolo de chocolate e conversar. Já só resta uma na Orquestra do Porto. Todos os outros, a Wendy, flautista australiana, o Gilles, francês que tocava fagote, o John e a Jean, violistas ingleses, se foram embora. Só ficou a violinista Nancy americana. Eram um grupo fixe que me deixou saudades.
O meu filho ainda agora fica em casa da Wendy e do marido quando tem de ir a Bruxelas - quase todos os meses - e toca flauta com ela. É um prazer para ele estar com uma pessoa tão talentosa.

Martha Argerich delicia-me com os seus trilos, o seu cabelo cinzento e desalinhado, o vigor e a emoção que saem das suas teclas. A orquestra acompanha-a na perfeição....um concerto indescritível e que me deixa sem fala. É argentina, avessa aos media, já gravou para inumeras editoras. Tem 70 anos e venceu um cancro do pulmão detectado em 1990, que a obrigou a ablação de parte do órgão em questão. E está aqui a deliciar-me com o seu talento, a sua energia e expressividade.

Acabou. A audiência de pé aplaude-a com entusiasmo, diria, com fervor. Martha, por favor, toca um encore, suspiro eu....e todos os outros comigo. E ela toca mesmo. Obrigada.

Podem ouvir um excerto do mesmo concerto aqui e agora:)

terça-feira, 8 de março de 2011

O PIANO

A palavra piano, derivada de pianoforte em italiano, tem um som adocicado, que soa bem e é igual em todas as línguas - excepto na alemã, que como sempre tinha de nos contradizer, chamando-lhe Klavier -
Também assume significados diferentes, podendo referir-se ao modo de tocar, mais suave ( pianissimo- muito suave).
Mas o que é um piano?

O som é produzido quando os batentes, cobertos por um material (geralmente feltro) macio e designados martelos, e sendo ativados através de um teclado, tocam nas cordas esticadas e presas numa estrutura rígida de madeira ou metal. As cordas vibram e produzem o som. Pintura de Claudia Barbican
Praticamente todos os pianos modernos têm 88 teclas. As teclas das notas naturais (dó, ré, mi, fá, sol, lá e si) são brancas, e as teclas dos acidentes (dó #, ré #, fá #, sol # e lá # na ordem dos sustenidos e as correspondentes ré b, mi b, sol b, lá b e si b na ordem dos bemóis) são da cor preta. Todas são feitas em madeira, sendo as pretas revestidas geralmente por ébano e as brancas de marfim ou material plástico.
É de referir que um piano normalmente fica ligeiramente desafinado quando é transportado ou quando é sujeito a fortes correntes de ar.

- Wikipedia

Comecei a tocar piano aos seis anos, creio eu, assim como os meus irmãos todos. Não sei como é que os meus pais conseguiam pagar as lições - 50 escudos cada na altura - pois era uma fortuna, mas todos nós nos sentámos no banco em frente às teclas, com maior ou menor apetência para as fazer vibrar. A nossa professora, a quem chamávamos Fernandoca na intimidade era uma senhora reboluda com caracois ruivos, que se gabava de conhecer meio mundo - ela e o meu Pai conheciam o mundo inteiro! - e nos contava histórias do meio musical, as competições e a dificuldade de vencer e ser pianista. Nada disso me interessava muito, devo dizer, pois não tencionava ser uma intérprete famosa e nem sequer fiz os exames do 3º ano no Conservatório, como duas das minhas irmãs, mais dotadas, segundo se dizia na família.
Lembro-me que as "minhas" peças mais famosas eram A Marcha da Aida, que o meu Avô dirigia, por vezes, assinalando os fortíssimos que eu atacava com toda a garra e a Dança Húngara nº5 de Brahms, muito mais melodiosa e com um ritmo infernal, que me apetecia mais dançar do que tocar. Para alem disso tocávamos os Czerny, os Bach e os Schmoll, como todos os meninos que começam. Deixei de tocar na adolescência porque já não era obrigada a isso, estava numa fase rebelde e achava que escrever histórias, ler ou fazer tricot tinham muito mais interesse do que passar horas a toquipar, que era o que eu fazia. Mais tarde fiquei com pena e ainda recomecei sozinha a tocar Clayderman quando comprámos um piano digital para o meu filho. Esse toca bem, mesmo improvisado, e acompanha o meu neto no violino sempre que vou lá a casa. O seu talento para a música é algo que não herdou nem de mim, nem do Pai, faz parte dele e sempre foi uma das suas paixões.

Um dos filmes que mais me impressionou na vida e que vi aqui na saudosa Casa das Artes duas vezes na mesma semana tal foi o meu entusiasmo, chama-se O Piano. Não vou falar aqui do filme, mas da música de Michael Nyman, que é transcendente, uma das criações para cinema mais belas que conheço. As imagens do filme assentam como uma luva na música - ou vice-versa - o filme é a música, a alma, a viagem, a tortura, a paixão de dois seres que se revêem naquelas teclas.

Aqui fica o vídeo para recordar. Ainda agora esta melodia me faz arrepios.

segunda-feira, 7 de março de 2011

A nossa TV

Oiço um pianista, Nicholas Angelich, a tocar Rachmaninov com uma limpidez e sentimento inegualáveis, num concerto em Lyon. A música de tecla enche a minha sala e transmite-me paz e serenidade. Rachmaninov é um dos meus compositores preferidos, sobretudo pelas obras que deixou para piano. Cada vez gosto mais de ouvir estes programas e troco-os de mão beijada por qualquer telejornal, seja ele da SIC, TVI, SICN ou RTPN....é tudo igual, queixas e mais queixas, assaltos,polítiquices, fogos, cenas chocantes, pessoas aos berros, futebol até dizer BASTA! Não há direito de se encherem horas e horas de emissão com programas destes, estupidificantes, sem o mínimo nível, chatos, como diriam os jovens "uma seca!"

Ontem vi por acaso um programa na SIC N as 2 da manhã que é sempre excelente : 60 minutos. Nele deram uma reportagem sobre o filme " O Discurso do Rei" ( não percam), mostrando como as fontes de que se serviu o escritor David Seidler foram seguras e o filme seguiu à letra tudo o que estava nas cartas do Rei Jorge VI a Lionel Logue, o seu terapeuta, assim como as fichas clínicas do último e ainda testemunhos do seu neto. O verdadeiro Logue era muito mais bonito do que Geoffrey Rush, (que também é australiano e um actor excepcional na minha opinião), e Colin Firth não tem a finesse dos traços do verdadeiro rei, mas a verdade é que, ouvindo os discursos lado a lado, a diferença é quase nenhuma. Colin Firth e Geoffrey Rush aparecem juntos e sempre com um sentido de humor espectacular na entrevista para a CBS. Encontrei o programa ou um identico em

http://www.cbsnews.com/video/watch/?id=7357190n

Fica aqui a minha homenagem também ao piano e a Rachmaninov - Prelúdio tocado por Vadim Chaimovich - que me acompanham enquanto escrevo esta entrada e sofro as saudades dos meus netos que partiram ontem para a Alemanha....avó sofre!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sem a pintura e a música....

a minha vida não teria colorido...



Há cerca dum mês fiz estes quadrinhos. Tencionava oferecê-los, mas enamorei-me deles, coloquei-os numa parede estreitinha junto ao meu quarto, em coluna, e gosto de olhar para eles todos os dias, várias vezes.
Cada um deles me conduz a um lugar diferente, mas todos lá para o fundo do mar, locais misteriosos, onde habitam seres coloridos e atraentes, mais belos do que os que vemos à superfície, nas nossas cidades taõ betonizadas e torturadas pelos asfaltos, passeios sujos e grafitti.
A pintura faz-me sonhar e, mesmo quando não me sai nada de jeito e destruo o que fiz, sinto que valeu a pena estar ali aquelas horas com os pinceis na mão.
A música - oiço neste momento um concerto de música de Câmara de Schubert no Mezzo com um violino plangente tocado magistralmente - e a pintura enlevam-me a ajudam-me a viver melhor os momentos de relativa solidão que me inflijo a mim própria com teimosia.
Os dedos sobre as teclas ou sobre as cordas, os pinceis sobre a tela, a harmonia dos sons, a variedade dos tons, tudo isto é mais belo que a realidade do dia a dia.
Deixo-vos aqui a Fantasy for Violin and Piano in C Major D. 934 de Schubert

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Um serão com Chopin



É espantoso como a Música nos leva a recuar por vezes anos e anos, fazendo-nos regressar à infância e às doces recordações familiares...

O MEZZO ( mais uma vez) brindou-nos com duas horas de Chopin....piano tocado por dedos que mais parecem duendes dançando sobre as teclas,
numa alternância entre o tímido, o furibundo, o plangente, o revoltado, o romântico, o persistente, o entrelaçado e o suave...

Chopin é tudo, são teclas a falar.



Recordo a minha Mãe, a sala da nossa casa, a janela com as cortinas a esvoaçar, o piano encostado à parede, os seus dedos a dançar sobre as teclas. Era muito pequena, mas adorava sentar-me ao pé e ouvi-la tocar. Não o fazia todos os dias, só de vez em quando e por isso era tão saboroso.

Ouvi agora os Estudos, as Mazurkas, os Prelúdios, as Valsas, só faltam os Nocturnos para o serão ser completo. E feliz, embora nostálgico.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Quality time




Hoje foi um dia diferente.

Fui buscar o meu neto mais velho ao colégio, depois do treino de futebol, para o levar a um concerto na Escola de Música Silva Monteiro, reputadíssima academia de grandes músicos desta cidade,onde o meu neto aprende a tocar piano com um professor da Universidade de Aveiro, que mostrou interesse em dar-lhe aulas.
Quando lá chegámos, estavam muitas pessoas reunidas no átrio.
O concerto constava de seis peças, uma sonata de Beethoven - 1º andamento, tres peças de Chopin, das quais saliento o Estudo opus 10, nº4, que o rapaz, Raul Peixoto da Costa, de 16 anos, tocou magistralmente. As outras duas peças eram espectaculares, a de Lopes Graça, Música Festiva nº 14 muito original e vistosa, outra, Sugestão Diabólica Prokofiev, igualmente rebuscada e difícil. O meu neto ficou com os olhos em bico quando o viu trocar as mãos e tocar na madeira em alternância com as teclas na peça do compositor português. Todo ele vibrava.
Findo o concerto, propus-lhe irmos jantar os dois à Alicantina, um restaurante muito popular que fica na zona, o que lhe agradou imenso por poder comer um prego no prato e beber um sumo. Fica feliz com pouco, este meu neto.
À vinda para casa, perguntei-lhe: Lembras-te quando eras pequenino e a Avó te contava histórias no caminho do colégio para casa?
E comecei a contar-lhe: Era uma vez um Mocho e uma Raposa. O Mocho estava no cimo duma árvore....ele interrompeu-me logo com jeitinho: Vóvó, não era um corvo? ". Desatei a rir com a minha lacuna...e ele acrescentou filosoficamente: É que as raposas não andam à noite pelos campos....". Uma lição do neto à Avó (já gágá). Continuei a contar a história agora com o corvo no seu lugar. As objecções continuaram: "Como é que o Corvo falava com a Raposa e o queijo não caía?". Respondi: É que ele falava com a boca cheia, como tu, a comer o gelado! Marquei um ponto, finalmente!:))

Assim se acabou a tarde. O pequenito já estava com sono e ainda tinha de tomar banho antes de dormir. Suspirou: Mas porque é que eu fui jogar futebol? Devia era ter ido à piscina como o mano para não ter de tomar banho! . Eram 8 horas.

Fica aqui um Estudo de Chopin em memória destas horas preciosas.

sábado, 16 de outubro de 2010

Beethoven e futebol II

Já uma vez aqui escrevi que gosto de ver futebol acompanhado de música clássica.

Gosto de ver a bola quando não saio. O hábito ficou dos inúmeros sábados que aqui passei com o meu filho mais novo que adorava futebol e via sempre a Premier League - Liga Inglesa. Hoje em dia já nem isso. O trabalho do CEJ é tão intensivo que não lhe deixa tempo para respirar e a vida dele resume-se em ir para o CEJ, biblioteca e casa para estudar e dormir. Nem vem aos fins de semana, pois as aulas à 6ª feira a tarde só lhe permitem gozar o sabado e parte do domingo....os bilhetes de comboio são caros para quem só ganha 900 euros e a viagem cansativa. Assim, há tres semanas que não o vejo, e embora fale com ele todos os dias, tenho a sensação de que está muito mais longe do que a minha filha em Leeds.
A vida é assim....é uma fase muito dura e só quem por lá passa, é que sabe...valham-nos as memórias de anos muito ricos e vividos em total harmonia.

Hoje estou a ouvir ""de rajada" os concertos para piano de Beethoven -3, 4, 5 e já há muito que não constatava assim esta extraordinária simbiose entre a harmonia e a força, os leitmotive já tão conhecidos mas sempre tão impressionantes, o constante jogo da orquestra com o piano, as esperas, o retomar, as cadências, o delírio das teclas, a exuberância das passagens instrumentais, a ansiedade pelas notas seguintes, a emoção, a solidariedade dos instrumentos.... este Beethoven é suspense, é suavidade, é sussurro, é toca e foge, é reencontro, é gozo, é Vida! Bem aventurados os que podem ouvir.

Deixo-vos aqui extractos dos meus andamentos preferidos desses concertos.
Bom fim de semana com ou sem futebol, mas com muita música.

domingo, 1 de agosto de 2010

Tríptico Cor em Movimento


Para festejar o 1º aniversário do blogue, fiz este tríptico em tres tonalidades diferentes que se multiplicam por tantas outras conforme a luz,a posição,as sombras, o local e até o nosso estado de espírito.
Gosto de todos, embora o violeta me pareça o mais original. Ao vivo despertam mais as nossas sensações. Têm um tamanho razoável, 60x30, e foram pintadas em acrílico com gel e areia misturados de forma a criarem toda a espécie de rugosidades e desenhos para as tintas escorrerem e fundirem-se dum modo artístico.Cliquem neles para ver ao perto.

Deram-me imenso prazer, foram duas noites e três dias a inventar...será abstracto, será gestual? O meu amigo Paulo o dirá:))

Para festejar o dia ofereço-vos uma performance extraordinária dum dos mais ( o mais?)
aclamados pianistas da actualidade,Grigory Sokolov num dos concertos mais carismáticos do Romantismo, Rachmaninoff - Concerto nº 3 ( 1º andamento incompleto).

segunda-feira, 26 de julho de 2010

DIA MUNDIAL DOS AVÓS



Hoje, 26, celebra a Igreja o dia de S. Ana e S. Joaquim, avós de Jesus, pelas Escrituras. Não preciso de dias especiais para comemorar o facto de ser Avó. Nem todos os dias são dedicados aos netos, muitos deles não são e nem sequer os vejo. Estão porém sempre no meu pensamento. E esse pensamento é afectuoso e doce, quente e saboroso.

Ontem fui passar parte do serão com eles e houve concerto. Pai e filhos tocaram para mim, senti-me bem e eles estavam felizes. O mais velho já toca violino com bastante precisão e sobretudo com expressão, o que me comove. O mais novo toca violoncelo ainda incipiente, mas acima de tudo adora shows, não pára de dançar, cantar, saltar, tudo ao ritmo da música, que lhe está na massa do sangue. O meu filho está a tocar piano cada vez melhor desde que compraram um instrumento novo para substituir o alemão muito antigo que viera de casa da minha Mãe em Lisboa e estava a desfazer-se.Para minha alegria tocou uma sonata de Beethoven, Bach e o Arabesque nº1 de Debussy que já a minha mãe tocava, em dias de calmaria.

A tarde estava a findar, a Lua Cheia a erguer-se avermelhada e o meu neto mais novo exclamou: "A Lua até parece a Terra! Mas não é, pois não? Nós estamos aqui em cima da Terra, não podemos vê-la assim redonda, tem de ser a Lua!" Depois acrescentou: "O Sol é uma estrela de fogo e tem tanta luz que ilumina tudo. A Lua não!"

Mas felizmente, há luar...como diria Stau Monteiro...

Fica aqui um poema aos avós modernos ( brasileiro)

Vovó século XXI

Como é bom ter uma avó!
Companheira que ela só,
Conta histórias de encantar
Branca de Neve - Cinderela...
Canta canções de ninar
Não me imagino sem ela

Conta que o lobo mau é bom
Que não comeu a avozinha
Foi tudo brincadeirinha
Pois quando o encontrou
No caminho da floresta
Deu-lhe tanto carinho
Que o lobo virou bonzinho
Mais parecia um cachorrinho
E pra ele tudo era festa

Ela inventa, e diz então
Que a vida é uma comprida linha
que a ponta final é a dela
E que a do início é a minha
Tenho que correr pra pegá-la
Soltando a imaginação
Um dia vou alcançá-la

Sabem que a minha avó,
Leva-me a passear
Acompanha-me à natação
E ensina-me a nadar?

Quando ela está por perto
Não tenho medo nenhum,
A minha avó é decerto
Vovó século vinte e um!


Isabel Correia da Silva e Sousa

E um vídeo lindo com a música e imagens a condizer:

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Maria João Pires veio , tocou e venceu



Ouvi-a hoje ao fim da tarde na Casa da Música. O concerto adiado de Outubro realizou-se hoje. Encantou-me, não porque fosse além das expectativas, mas porque é sempre grato ouvir e ver uma pianista portuguesa de classe mundial tocar numa sala de classe mundial , com uma audiência entusiasta, sala cheia, coro repleto de ouvintes...e no meio disto tudo, os sons límpidos das sonatas de Beethoven, percorrendo-nos a mente e inebriando-nos de beleza e simplicidade.
Valeu a pena esperar uns meses. Não retiro o que disse da "adiada" Maria João em Outubro. Mas reitero aqui a minha admiração por esta "rapariga" da minha idade, que ainda parece a garota que conheci nos seus 15 anos e que atacava a Dança do Fogo de Falla, com a garra duma profissional já "encartada".

Bem hajas por existires e por, apesar de tudo, te manteres a mesma.
Standing ovation. No Porto.

Vai aqui uma homenagem ao teu talento e virtuosidade.
Um vídeo muito especial, em que tocas e falas ( em inglês) do teu eu enquanto mulher e enquanto pianista.