sexta-feira, 27 de maio de 2011

Tempo de flores e de amanhãs


Continuo o pléripo da floricultura na minha zona.
No caminho para a Solinca, em que percorro uns 800 m. Há flores por todo o lado, em casas grandes que devem tar jardineiros e rega automática, jardins abandonados como o da Casa das Artes que até faz dó, com agapantos a brotar à míngua de água, cantos e recantos junto aos prédios que penso serem tratados pelos condomínios e estão maravilhosos, jardinzitos que até parecem terem sido oferecidos a alguém e adoptados à nascença. Pasmo de admiração, pego na minha máquina ou Ipod e fotografo-as todas, pois adoro vê-las vezes sem conta no computador. Ponho-as aqui ou envio-as para o facebook, onde são muito apreciadas, todos gostamos de flores.
Não resisto a partilhar as que tirei hoje convosco. Talvez vos embeleze um pouco a vista toldada por esta campanha eleitoral tão deprimente. Talvez vos alegre saber que à beira das nossas casas, a Natureza continua viva e viverá para lá das Troikas, das quezílias, da corrupção, do desalento, da pobreza e da ausência de futuro. Cada flor é uma promessa de amanhã.


FLORES

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura.



Sophia de Mello Breyner

Mulher na água - Cutileiro

Há muitas estátuas de Cutileiro de que não gosto, como por exemplo, a de D. Sebastião, plantado no largo em Lagos. Penso que as melhores esculturas dele são as de mulheres, com formas generosas e muito sensuais.

No health club Solinca têm uma à entrada para a piscina que me encanta. Uma mulher nua semi oculta pela água, com longos cabelos e uma cabeça grande.

Ontem resolvi tirar umas fotos e ficaram bonitas.



Fica aqui um poema de Rabindranath Tagore que se coaduna com esta escultura.

A Mulher Inspiradora

Mulher, não és só obra de Deus;
os homens vão-te criando eternamente
com a formosura dos seus corações,
e os seus anseios
vestiram de glória a tua juventude.

Por ti o poeta vai tecendo
a sua imaginária tela de oiro:
o pintor dá às tuas formas,
dia após dia,
nova imortalidade.

Para te adornar, para te vestir,
para tornar-te mais preciosa,
o mar traz as suas pérolas,
a terra o seu oiro,
sua flor os jardins do Verão.

Mulher, és meio mulher,
meio sonho.



Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"
Tradução de Manuel Simões

quarta-feira, 25 de maio de 2011

As flores do Verão

Hoje passei por um jardinzito que fica junto aos prédios da Rua António Cardoso e que, num pedacinho de terra minúsculo, ostenta as mais belas flores que se podem ver nesta época de quase verão. Levava um saco do Pingo Doce, ia cansada, mas tive de pousar tudo e pegar no meu Ipod Touch para eternizar a beleza que ali naquele cantinho da rua chamava por mim.
Não sei quem cuida daquelas plantas, quem as semeou, mas elas ali estão frescas, lindas, combinando os seus vermelhos e o seu perfume. É raro ver flores tão bem tratadas, tão apelativas assim no meio da rua. Dou graças a Deus por ainda existirem e por ninguém as cortar, vandalizar ou pura e simplesmente esquecer.

Ocorreu-me este soneto de Shakespeare, um dos mais bonitos dele, que trasncrevo traduzido e na versão original.

Shall I Compare Thee To A Summer's Day?

by William Shakespeare (1564-1616)


Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate.
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date.
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm'd;
And every fair from fair sometime declines,
By chance or nature's changing course untrimm'd;
But thy eternal summer shall not fade
Nor lose possession of that fair thou ow'st;
Nor shall Death brag thou wander'st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow'st:
So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.




Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.
Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;
e, na canção sem morte, viverás:
Porque o mundo, que vê e que respira,
te verá respirar na minha lira.

William Shakespeare, in "Sonetos"
Tradução de Carlos de Oliveira

terça-feira, 24 de maio de 2011

Pela Foz Velha


Hoje resolvi fazer de turista e andei pela Foz Velha a observar as casas lindissimas
que por ai se vêem, no meio de alguns prédios banais. Também se vêem casas abandonadas, com trancas à porta, jardins por cultivar, alguma pobreza e sol, muito sol...
Na praia havia gente de todas as idades, corpos ao sol, crianças a tomar banho, turistas deleitados com a possibilidade de se deitarem na areia em topless.


Do alto da esplanada, a minha câmara adora bisbilhotar...

DEAD CAN DANCE - Os mortos dançam

E os vivos também.

Esta banda encantou-me há uns anos atrás....andava viciada, ouvia-os a toda a hora, tenho todos os CDs que a editora publicou deles, antes de fechar portas. A vocalista principal Lisa Gerrard ainda gravou alguns albuns individuais, que também possuo, música de filmes como Gladiator.

Os Dead Can Dance formaram-se em Melbourne, na Austrália, em 1981, mas pouco tempo depois mudam-se para Londres. Nesta cidade, o grupo assina um contrato com a 4AD, uma editora dedicada à música alternativa.
O sucesso da banda, logo os consagra como uma das mais importantes desta editora.
O género musical da banda caracteriza-se por um conjunto de estilos, destacando-se o darkwave, com fusão de world music, música medieval e da Renascença europeia.
Em 1984, lançam o primeiro álbum, Dead Can Dance e, no mesmo ano, trabalham conjuntamente com os This Mortal Coil, na música "It'll End In Tears". No ano seguinte lançam o segundo álbum Spleen and Ideal, que atinge o #2 na tabela independente do Reino Unido. O quarto álbum, The Serpent's Egg, é editado em 1988, e escrevem a banda sonora do filme El Nino de la Luna, de Agustin Villarongas, onde Lisa faz a sua estreia como actriz.
Em 1990, lançam Aion, e fazem a sua primeira turnê nos EUA. O álbum de 1993, Into the Labyrinth, é o primeiro álbum da banda a ser editado nos EUA, tornando-se um sucesso, também, na Europa. Na sequência, o grupo realiza nova turnê pelos EUA e Europa, gravando-a em Toward the Within, de 1994. Paralelamente, Lisa Gerrard grava o seu primeiro álbum a solo em 1995, The Mirror Pool.
Com o passar dos anos Lisa Gerrard mudou-se para a Austrália, a sua terra natal e Brendan Perry para a Irlanda. Apesar da distância continuavam a trabalhar em conjunto até à separação da banda em 1998.


Os Dead Can Dance separam-se então em 1998, sendo que ainda hoje não se sabe quais as verdadeiras razões que levaram a este fim. Contudo tanto Lisa Gerrard como Brendan Perry continuam a produzir música a solo tendo já editado vários álbuns a solo e inúmeras participações em bandas sonoras de diversos filmes.

O grupo voltou a reunir-se temporariamente em 2005 para uma tour pela Europa e América do Norte como forma de tributo aos fãs. Em maio de 2011, Brendan Perry anunciou que se reuniu com Lisa Gerrard e lançarão um novo álbum de estúdio em 2012, com uma tour pela Europa, América do Norte e América Latina no final do ano.


A música dos Dead Can Dance é música etérea, algumas letras são em línguas africanas, que não compreendemos , mas que soam maravilhosas ao nossos ouvidos. Já há muito que os não ouvia, mas uma referencia do meu filho no Facebook a esta fantástica banda fez renascer a paixão por este tipo de música alternativa, que penso todos deveríamos ouvir e apreciar.

Aqui ficam duas das canções mais emblemáticas de Lisa Gerrard:



segunda-feira, 23 de maio de 2011

SEPIA


Há muitos anos, as fotografias eram a preto e branco ou sepia. Em geral atribuímos a sepia ao castanho velho, a fotografias antigas, casas e mansões, retratos de família, filmes feitos em casa, etc.

A cor sepia tem um encanto muito especial e hoje pode-se transformar uma foto cheia de cor num exemplar sepia.
Eis o que encontrei na Wikipedia:

A fotografia em sépia é mais conhecida hoje em dia no mundo como “foto envelhecida”, mas essa expressão só tem fundamento pois muitas fotografias eram armazenadas de maneira inapropriada, e acabavam adquirindo a tonalidade sépia pelo contato com colas a base de PVC, sendo que isto normalmente gera uma cópia manchada, e até mesmo a emulsão se descolando de sua base. O processo de viragem sépia também foi mais popular nas primeiras décadas do século XX.

Atualmente, alguns programas informáticos como o Photoshop transformam uma foto comum em sépia em minutos. Bem diferente do método convencional de revelação, onde é necessário se fazer a revelação primeiramente em preto e branco para depois passar pelo processo de viragem em sépia.

Tenho várias fotos do Porto nessa cor e gosto delas. São diferentes, contam histórias...

sábado, 21 de maio de 2011

O caso Maddie


Sempre passei férias na praia da Luz, perto de Lagos. Pelo menos, desde há quarenta e tal anos. Conheci aquela estãncia de verão quando ainda era uma rua apenas com casas baixinhas de pescadores e umas raras casas de férias, algumas de famílias nobres, outras de ingleses reformados que escolhiam o nosso país para acabar as suas vidas num clima ameno.
Era uma praia muito pacata, mesmo no pino de Agosto, mas a pouco e pouco surgiu o primeiro mini-mercado que se transformou em supermercado e depois em hipermercado no espaço de vinte anos.
Quando fui para lá pela primeira vez, as compras tinham de ser feitas em Lagos, onde havia lojas e restaurantes. Na Luz só havia um barzito de madeira no meio da praia,o Paraíso, onde por vezes iamos tomar um martini ao fim da tarde. A primeira boutique, Capricho, com donos ingleses, foi um sucesso pois vendia jornais e pequenos objectos todos feitos em Inglaterra com aquele charme britânico que nós tanto apreciávamos.
A Luz era partilhada por portugueses e ingleses em harmonia, com alguma subserviência da parte dos empregados que serviam nos restaurantes ou nos supermercados, alguns preços proibitivos, mas com uma escolha de produtos que só fora do país se conseguiam arranjar: compotas, caris, conservas, carnes frias, fast food,take away, uma variedade enorme, que até custava a acreditar existisse numa zona balnear tão pequena.
A Luz era um pequeno paraíso, a nossa casa de férias um local feliz para os meus Pais que para lá fugiam muitas vezes ao fim de semana. Não tínhamos telefone nem TV. A viagem era horrível pela estrada antiga, mas ao chegar, abria-se o mar imenso na nossa frente e a palmeira da nossa Avó saudava-nos do alto da sua copa. Também havia a fortaleza, uma casa arruinada, com janelas acessíveis, onde os meus irmãos entraram uma vez numa acção digna de livro dos Cinco.
As rochas, onde passávamos grande parte do tempo, eram lisas e permitiam andarmos até ao Burgau a 5km da Luz, contemplando as pequenas baias, onde o mar transparente deixava entrever milhares de seixos e rochas de cores variegadas.
A igreja, monumento nacional, só tinha missa ao domingo, vindo um padre de fora celebrá-la. Agora já tem mais missas e está sempre aberta, vendo-se o lindo retábulo dourado de todo o largo.

Foi nesta terra pacata que Maddie desapareceu a 3 de Maio de 2007.
Não se sabe como.
Há mistério que se sente no ar quando se sobem as ruelas que vão dar ao resort Ocean Club. A criança volatilizou-se e quem conhece a Luz, como eu, tem dúvidas sobre a possibilidade de ter havido um rapto naquele sítio ermo, cheio de gente simpática, segurança total e uma beleza natural espectacular. As crianças costumavam brincar na praia até anoitecer e mesmo depois, sempre se viam casais a jantar e as crianças sozinhas na praia a correr , a andar de baloiço ou a chapinhar no mar.
Nunca se saberá o que aconteceu, penso eu, mas a investigação vai recomeçar, agora já sem a colaboração dos media que foram implacáveis em 2007. Ver os pais na TV fez-me reviver aqueles meses em que seguia o caso pelos jornais e internet avidamente, como se de um thriller se tratasse.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

terça-feira, 17 de maio de 2011

Não tem nada a ver com Arte

mas obriga-me a pensar e a cogitar sobre as controvérsias e paradoxos da vida e nos meios usados para atrair a atenção dos telespectadores.

Uma telenovela da TVI, que só vejo intermitentemente - não tenho paciência para os longos diálogos, más interpretações, cenas pseudo burlescas dum humor baixo e duvidoso, intervalos com anúncios intermináveis, enfim....nunca chego a ver nada seguido - inclui uma casa de passe, onde as raparigas são escravas dum chulo, interpretado pelo eterno galã piroso, obrigadas a obedecer e a fazer tudo o que vai contra a sua vontade e dignidade só para conseguir ganhar a vida. Na realidade, aquele chulo "viola" as suas empregadas todos os dias, vive do que elas angariam, sendo tudo, aparentemente, legal e quase recomendável.
A telenovela é transmitida no horário nobre e qualquer criançaou aolescente pode ver estas cenas muitissimo chocantes, quanto a mim, que já sou adulta. Felizmente, os meus netos vão para a cama as 8 e não tem TV em casa, acho que os Pais têm que ter muito cuidado com aquilo que é lixo puro, oferecido e ainda abençoado pela TVI, o canal "grande mestre do "crime mediático" em Portugal. É um canal perigoso, amoral, capaz do melhor e do pior. O programa Perdidos na Tribo é outro programa que me choca e que me recuso a apoiar depois de ter visto uns dez minutos absolutamente "nojentos". Sei que as pessoas fazem tudo por dinheiro, mas não é curial bombardear adolescentes e mesmo velhos, muitas vezes sós em casa, com imagens aberrantes de so called "famosos" com atitudes reprováveis em qualquer sociedade.

Por fim, temos uma personalidade com prestígio internacional apanhado num caso que não teria impacto se o arguido não fosse quem é. Foi apanhado, se tivesse viajado como queria para França, provavelmente ainda hoje estaria a decidir sobre a nossa dívida na reunião do Ecofin. Armadilhas que o império tece. Neste momento, um candidato a Presidente de França medita em Rikers, a pior prisão de NY, sobre o seu futuro que se apresenta negro.

A vida é cheia de paradoxos, talvez por isso aliciante. Mas será que este tipo de notícias e programas devem ser mostrados a toda a hora e a qualquer incauto que quer ver TV? E porque não mostrar as maravilhas que acontecem no mundo, em vez das misérias e atrocidades constantes?

Como proteger os jovens destas agressões quotidianas?

segunda-feira, 16 de maio de 2011

PINA - Maravilha em 3D



Fui ver "Pina" , o filme de Wim Wenders sobre o trabalho de Pina Bausch, coreógrafa alemã, que faleceu em 2009.
Tinha algumas reticências, pois não gosto muito de ver bailado no cinema ou na TV, já tinha ouvido dizer mal de alguns espectáculos que a coreógrafa realizou cá em Portugal, sentia algum receio de que o filme fosse um mero documentário pra-frentex, sem substância, esotérico ou para mentes intelectualoides.

Nada disso. Adorei. E pela primeira vez dei o devido valor as 3D. Não há dúvida que sem elas, este filme perderia 50% do impacto.

Ao ver este filme, diria que no princípio era a música. e o corpo...não o verbo. No dizer de Wenders, Pina não gostava de palavras e falava muito pouco com os seus alunos, pelo meio surgem frases que ela proferiu em dada altura a cada um dos bailarinos ou bailarinas durante anos. Mas, segundo eles, Pina exprimia-se pelo olhar, os seus olhos pareciam dizer tudo.

Transcrevo aqui as próprias palavras do realizador acerca da arte transmitida pela coreógrafa e sobre o significado do movimento:

MOVEMENT

Until now movement as such has never touched me.
I always regarded it as a given.
One just moves. Everything moves.
Only through Pina's Tanztheater have I learned to value
movements, gestures, attitudes, behaviour, body language,
and through her work learned to respect them.
And anew every time when, over the years I saw Pina's pieces, many times and again,
did I relearn, often like being struck by thunder,
that the simplest and most obvious is the most moving at all:
What treasure lies within our bodies, to be able to express itself without words,
and how many stories can be told without saying a single sentence.


Ao contemplar cenas coreografadas, no filme, senti uma leveza, uma sensação de liberdade total, a imagem do corpo como algo táctil, maleável , completamente desprovido de peso, capaz de se mover em todos os sentidos, gesticular, abraçar, empurrar, aguentar, suster, atirar, chapinhar e tudo o mais que com ele se queira fazer. Esta arte é um hino ao corpo, embora os bailarinos não sejam especialmente bonitos, nem escolhidos pela sua beleza física, talvez mais pela sua expressividade.

Mas para mim, ainda o melhor de tudo, é o soundtrack do filme. A música é absolutamente divinal do princípio ao fim, variando de estilos e terminando com uma balada de Coimbra, pela voz de Adriano Correia de Oliveira, que me fez estremecer de emoção.

Fica aqui o trailer: