Hoje voltei ao Botânico. Necessitava de ar puro e apetecia-me andar, ver algo bonito como as camélias ainda em botão que se preparam para desabrochar na Primavera.
O jardim está desolado, sem flores de espécie nenhuma, as árvores sequiosas, mesmo sem folhas, nota-se nos ramos esguios a secura que tem assolado o país.
Os lagos de nenúfares pareciam sarcófagos gigantes e redondos. Se não foram os reflexos das árvores e arbustos na água lodosa, até julgaria que estavam vazios. Que desolação...
Sei bem que é inverno. Ainda não há nenufares.Só há raízes que estão no fundo dos lagos. As sementes ainda não germinaram, as folhas estão escondidas e flores virão mais tarde ainda. É assim o ciclo da vida das plantas e se gostamos delas, temos de as respeitar. As estufas permitem outras veleidades, mas gosto de ver as plantas desenvolverem-se naturalmente, sem habitats artificiais.Para "matar saudades" coloco aqui algumas fotos que tireiem diversas épocas do ano e umas pinturas de Monet, o pintor que mais tempo dedicou a esta bela flor.
Já não falta muito para a Primavera, é o que vale. Em breve veremos flores nas camélias japónicas que inundam o jardim...não custa esperar.
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terça-feira, 31 de janeiro de 2012
sábado, 1 de janeiro de 2011
NEW YEAR'S BLUES
Este Ano Novo de tão falado nos media já me parece um pouco velho, se não mesmo atacado por uma doença incurável, a depressão contínua.
Ontem, dia 31, não havia um restaurante aberto quando, ingenuamente, decidimos ir jantar fora pelas 7.30 e comprar simultaneamente o espumante e algumas coisas para a ceia de Ano Novo. Dei comigo e meus filhos no meio da Rua do Campo Alegre, a telefonar para restaurantes vários ( tenho uma lista no meu telemóvel), sem obter qualquer resposta.Acabámos por cozinhar um rosbife com batatas fritas e salada em casa, beber Vinho da Madeira em vez de champagne e comer a aletria doce que a minha nora me deixou aqui antes de ir passar o ano com familiares.
A crise não pode ser tão grande assim, se os restaurantes, cafés, esplanadas, shoppings etc. se dão ao luxo de fechar todos na véspera e no dia de Natal + véspera de Ano Novo. Se um desgraçado não tiver comprado nada com antecedência, como foi o meu caso, fica mesmo sem nada nesses dias.
Há muita gente que não tem jantares e almoços de família, que estão sós ou que pura e simplesmente gostariam de não ter de cozinhar. Mas tudo fecha.
Sinto um certo cepticismo quanto à consciência individual da crise - a que os ingleses chamam crisis awareness - ou ao modo como ela está a ser vivida e pintada pelos meios de comunicação social.
Os cinemas estão cheios,sobretudo de filmes para crianças, alguns puramente comerciais e sem interesse, não faltam pipocas e coca-cola para acompanhar, as compras de Natal ultrapassaram as do ano passado, as lojas regurgitam de roupas, víveres, bugigangas, doces, livros e revistas.
Só as lojas de CDs ficaram reduzidas a pó de há uns anos para cá. Hoje já não se encontram CDs de música clássica ou erudita em nenhuma loja do Porto, nem na Fnac, nem na Worten, nem em lado nenhum. A Melodia, que era excelente fechou. Mesmo em Inglaterra a célebre HMV - His Master's Voice- e a Virgin estão nas ruas da amargura. Uma tristeza. Em contrapartida, cada vez se pôem cá fora mais livros de duvidosa categoria ou interesse, os chamados livros de divulgação, sobretudo nesta época natalícia, todo o mundo escreve e alguns escrevem mal e todo o mundo parece ter algo para dizer aos outros ( este blogue é disso exemplo!:)).
O que escrevo hoje é pouco motivador, não estou muito animada neste princípio do ano.
Estou com o New Year's blues, a melancolia pos festas.
Já há meses que ando assim, com uma sensação de crise que não tem nada a ver com aquela de que todo o mundo fala, mas uma minha, interior, que tem a ver com o tempo cinzento, com o Botânico fechado ao público, com a Casa Andersen pintada de vermelho escuro, com as minhas maleitas pessoais que me afligem bastante, o desencanto do atelier e, forçosamente, com o afastamento progressivo e necessário dos meus filhos... enfim toda uma miscelânea de coisas que me trituram e tiram aquele gosto de viver.Até com os netos, sinto esta angústia, que carece de uma explicação.
Neste dia 1, pergunto-me se o mundo, neste momento, está mesmo em crise. Ou se são as pessoas que continuam a viver como se ela não existisse, aproveitando ao máximo o que têm e não têm.
Ontem, dia 31, não havia um restaurante aberto quando, ingenuamente, decidimos ir jantar fora pelas 7.30 e comprar simultaneamente o espumante e algumas coisas para a ceia de Ano Novo. Dei comigo e meus filhos no meio da Rua do Campo Alegre, a telefonar para restaurantes vários ( tenho uma lista no meu telemóvel), sem obter qualquer resposta.Acabámos por cozinhar um rosbife com batatas fritas e salada em casa, beber Vinho da Madeira em vez de champagne e comer a aletria doce que a minha nora me deixou aqui antes de ir passar o ano com familiares.

A crise não pode ser tão grande assim, se os restaurantes, cafés, esplanadas, shoppings etc. se dão ao luxo de fechar todos na véspera e no dia de Natal + véspera de Ano Novo. Se um desgraçado não tiver comprado nada com antecedência, como foi o meu caso, fica mesmo sem nada nesses dias.
Há muita gente que não tem jantares e almoços de família, que estão sós ou que pura e simplesmente gostariam de não ter de cozinhar. Mas tudo fecha.
Sinto um certo cepticismo quanto à consciência individual da crise - a que os ingleses chamam crisis awareness - ou ao modo como ela está a ser vivida e pintada pelos meios de comunicação social.
Os cinemas estão cheios,sobretudo de filmes para crianças, alguns puramente comerciais e sem interesse, não faltam pipocas e coca-cola para acompanhar, as compras de Natal ultrapassaram as do ano passado, as lojas regurgitam de roupas, víveres, bugigangas, doces, livros e revistas.
Só as lojas de CDs ficaram reduzidas a pó de há uns anos para cá. Hoje já não se encontram CDs de música clássica ou erudita em nenhuma loja do Porto, nem na Fnac, nem na Worten, nem em lado nenhum. A Melodia, que era excelente fechou. Mesmo em Inglaterra a célebre HMV - His Master's Voice- e a Virgin estão nas ruas da amargura. Uma tristeza. Em contrapartida, cada vez se pôem cá fora mais livros de duvidosa categoria ou interesse, os chamados livros de divulgação, sobretudo nesta época natalícia, todo o mundo escreve e alguns escrevem mal e todo o mundo parece ter algo para dizer aos outros ( este blogue é disso exemplo!:)).
O que escrevo hoje é pouco motivador, não estou muito animada neste princípio do ano.
Estou com o New Year's blues, a melancolia pos festas.
Já há meses que ando assim, com uma sensação de crise que não tem nada a ver com aquela de que todo o mundo fala, mas uma minha, interior, que tem a ver com o tempo cinzento, com o Botânico fechado ao público, com a Casa Andersen pintada de vermelho escuro, com as minhas maleitas pessoais que me afligem bastante, o desencanto do atelier e, forçosamente, com o afastamento progressivo e necessário dos meus filhos... enfim toda uma miscelânea de coisas que me trituram e tiram aquele gosto de viver.Até com os netos, sinto esta angústia, que carece de uma explicação.
Neste dia 1, pergunto-me se o mundo, neste momento, está mesmo em crise. Ou se são as pessoas que continuam a viver como se ela não existisse, aproveitando ao máximo o que têm e não têm.
sábado, 26 de dezembro de 2009

No rescaldo das Festas, sinto sempre depressão. Acho que é desejar demais e chegar à conclusão de que a Vida poderia ser diferente, se houvesse mais senso, mais liberdade, mais respeito, mais acreditar, mais sinceridade, mais paixão, mais tudo...
Vai aqui uma pintura minha que espelha a minha ansiedade hoje. E um poema de Alberto Caeiro a finalizar.
Querem uma Luz Melhor que a do Sol!
AH! QUEREM uma luz melhor que
a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas
que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol
que o Sol,
O que quero é prados mais prados
que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores
que estas flores -
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
terça-feira, 27 de outubro de 2009
A eterna adiada Maria João Pires

19:30,Sala Suggia 25 EUR
Maria João Pires | Pavel Gomziakov
Por razões de saúde da pianista, o recital de Maria João Pires foi adiado para uma data a anunciar brevemente e que terá lugar até à primavera de 2010.
Os bilhetes adquiridos manter-se-ão válidos para o novo espectáculo, podendo ser reembolsado o seu valor a quem desejar.
Pelo facto, alheio à Casa da Música, pedimos desculpas.

Conheci a Maria João quando ela tinha 15 anos e eu uns 13. Era prima direita duns grandes amigos do meu irmão mais velho, colegas das "Caldinhas" (Colégio Nun'Alvares em S. Tirso). Um dia apareceram todos lá em casa. Eles e a prima, que parecia uma avezinha, com o seu cabelinho curto , pequenina e frágil. Confraternizou connosco, muito simpática, e a páginas tantas, alguém a convidou a tocar piano.
Parece que a estou a ver na nossa sala de outrora. Não hesitou. Sentou-se ao piano e atacou uma série de peças.
Houve uma que nunca mais me saiu da memória: a "Dança do Fogo" de Falla, que nos pôs "de gatas". Tocávamos piano , mas as nossas capacidades limitadas eram incomparáveis com tal génio!! Soubémos, entretanto, que ela queria ser pianista e que era aluna do Campos Coelho, um dos melhores professores do Conservatório de Música de Lisboa.
Muito tempo passou até que Maria João se tornou uma "deusa", não só dentro como fora, a marca da Deutsche Grammophon, acompanhada pelas melhores orquestras do mundo e pelos seus amigos solistas, dando concertos memoráveis... somewhere else.
Só a ouvi uma vez no Porto. Tocou no Rivoli o Concerto nº 4 de Beethoven e não fiquei entusiasmada, talvez porque as condições acústicas não eram as melhores. Mas em contrapartida, tenho muitos CDs dela e oiço vezes sem conta os Improvisos de Schubert e os Nocturnos de Chopin, que me confirmam a sua excelência e sensibilidade.
Ansiava por este concerto na Casa da Música, É um local de culto para mim....e a pianista também. Infelizmente vai ter de esperar....isto se Maria João não resolver naturalizar-se, inventar mais uma desculpa, ostracizar o Porto por não ser nas beiras ou outra razão qualquer. É triste.
Para me consolar e aos que me lêem, vai aqui um pequeno memorial à grande pianista.
BRAVO!
domingo, 30 de agosto de 2009
Purcell- Dido's Lament
Para acompanhar o vosso Domingo, aconselho vivamente este excerto da plangente ópera de Purcell, o célebre Dido's Lament. As fotos são de paisagens de Inglaterra, que rimam na perfeição com a ária cantada por Emma Kirkby.
Bom Domingo!
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Batem leve, levemente...
Este poema lembra-me os anos de escola primária em que ninguém deixava de ler Augusto Gil, decorar tudo e, simultaneamente, de se condoer com a sorte das crianças que sofrem as agruras do frio.
Hoje resolvi pintar o inverno, a paisagem fria e agreste, com tanto de belo como de misterioso. Foi a guache e pastel.
Vai o poema também a lembrar esses velhos tempos.

Batem leve, levemente
Como quem chama por mim.
Será chuva, será gente?
Gente não é certamente
E a chuva não bate assim.
É talvez a ventania
Mas ainda há poucochinho
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia dos pinheiros do caminho.
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
. e cai no meu coração.
Augusto Gil
Hoje resolvi pintar o inverno, a paisagem fria e agreste, com tanto de belo como de misterioso. Foi a guache e pastel.
Vai o poema também a lembrar esses velhos tempos.

Batem leve, levemente
Como quem chama por mim.
Será chuva, será gente?
Gente não é certamente
E a chuva não bate assim.
É talvez a ventania
Mas ainda há poucochinho
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia dos pinheiros do caminho.
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
. e cai no meu coração.
Augusto Gil
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