É o nome dum filme, não me refiro à situação do país. Até agora, consegui não misturar a política com as artes, mesmo que haja relações entre ambas. E assim farei sempre que possível.
Fui vê-lo ontem, principalmente por causa doactor principal , Michael Fassbender, um germano-irlandês ( mistura explosiva) que me fascina. Já o vira a interpretar Rochesterem Jane Eyre, um dos melhores filmes que vi no ano passado e em Um Método Perigoso, em que interpreta Carl Jung, contracenando com a linda Keira Knightley
. É um filme diferente de que, paradoxalmente, se aprende a gostar, finda a exibição e passadas umas horas; deixa-nos a pensar, a matutar e a admirar a sobriedade do décor, a profundidade psicológica daquela personagem, o ghetto em que vive e o desespero perante a inevitabilidade da sua dependência.
Este tipo de filmes lentos e intimistas causam algum embaraço aos espectadores. Reparei que muitos ficaram sentados nas cadeiras, mesmo depois do filme terminar.
Vergonha é considerado um excelente filme pelos críticos, um filme que Hollywood ignorou, não havendo qualquer nomeação para óscares, porventura porque é um filme ousado, com cenas de sexo explícitas e um tema pouco ortodoxo.
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Acho que se deveria chamar "Solidão". Nada tem de vergonha, pelo contrário, a personagem principal masculina é um paladino da ética e do "dever ser", nunca pisando o risco da contravenção. Irmanados desde a infância (a cena no sofá com os desenhos animados em pano de fundo desfocado é genial), por motivos que se desconhecem mas que pouco importa conhecer, o irmão vive numa permanente chantagem emocional e num colete de forças sentimental, de que só se liberta através da droga do século XXI - o sexo ocasional, não relacional, mecânico. Quanto ao outro, ao relacionado com amor, é prudente, exigente e rigoroso.
ResponderEliminarNova Iorque é cinzenta, as luzes são brancas adrenalínicas, os recortes dos prédios e dos interiores gométricos. Não existem espaços redondos endorfínicos, ou seja, não existe barriga da mãe para onde se possa regredir, nem sair da solidão enorme e imensa da personagem.
Só um final intenso, levado aos limites, pode libertá-lo, a um preço elevado e porventura gerador de novos traumas. Tudo o mais é dependência, solidão, isolamento, incapacidade de explosão dos sentimentos, manipulação, pena, raiva, mas tudo contido, aparentemente sereno. Só.
Vergonha não é. É apenas sofrimento.
PS: Fassbender espectacular, como já tinha sido em Jung. Hollywood é demasiado boçal para o entender. Quanto às cenas de sexo, já vi "n" filmes mais explícitos...
ResponderEliminarNão fiz uma análise aturada do filme porque esperava que a fizesses tu! Como é que adivinhei?
ResponderEliminarNão queria copiar aquilo que já me tinhas enviado por e-mail...:)
Obrigada por este complemento da minha entrada.
bjo
O Fassbender é além do mais um homem lindo!
Talvez o melhor título em inglês fosse "Trapped" ( apanhado na ratoeira), porque retrata a situação dum homem, a quem foi negada a liberdade social,os sonhos, a vida normal. Vive num círculo vicioso, dependente duma irmã, incapaz de se desligar, sem futuro e só com um escape, que o deixa frustrado e inquieto.
ResponderEliminarFassbender interpreta esta personagem a 100%, sem grandes falas, só com o olhar ( marvilhosos olhos esverdeados), os gestos, o andar dum lado para o outro, na rotina fastidiosa em que está metido.
A arquitectura que o envolve é fascinante e suficiente para nos fazer sentir esse ghetto que é uma cidade grande.
Já tencionava ver esse filme. Mas agora fiquei mais motivada.
ResponderEliminarUm beijo.
Vá ver sem preconceitos...é um filme diferente.
ResponderEliminarBjo
Bem, Virgínia, aguçou-me mesmo a vontade de o ver...
ResponderEliminar(não li de propósito os comentários do seu irmão, nem depois o seu, porque ao começar iam dizendo mais do que eu queria)
Bjos
Quando escrevi a entrada não me referi à história, nem a pormenores, propositadamente, não porque não fosse cpaz , mas porque detesto ler críticas antes de ver o filme- as do Ypsilon, por exemplo tiram por completo o suspense de qualquer espectador. Os comentários que se seguiram talvez contenham spoilers e é melhor não os ler antes de ir ver o dito cujo.
ResponderEliminarBenvindo ao blogue!
bjo
Vi no seu post "Seca" uma coisa espectacular: escrevi-o por lá... :))
ResponderEliminarNão queria ser spoiler... desculpem... mas foi o entusiasmo de convencer, "post-film" a minha irmã de que o filme que parecia uma "m****" afinal era muito bom. Tarefa nada fácil, convenhamos!
ResponderEliminar;-)
ResponderEliminarNo problem....e não é que me convenceste mesmo???
Bjo
É daqueles filmes que ficam a marinar e a remoer dentro de nós. A mensagem é demasiado profunda para nos apercebermos dela em hora e meia.
ResponderEliminarMas dá que pensar, isto da dependência das pessoas umas pelas outras, dos fardos que se acarretam uma vida inteira e da possibilidade (ou não) de os deitar fora, do peso da instituição família e da fratria, da necessidade de momentos de evasão inconsequente, não responsabilizante, apenas momentânea. Vivemos cheios de pautas, obrigações, regras e leis, ao sabor de um determinismo exagerado, que nos tolda e inibe a liberdade. Será que, entre ser robot ou libertino, não haverá uma terceira opção que nos devolva a condição humana e a dignidade?
Isso daria para outra entrada sobre "blood is thicker than water" ( em que não acredito e serve de alibi ara muita malvadez).
ResponderEliminarEste blogue não é familiar - a família praticamente não "existe" aqui, mesmo que leiam todos os dias o que cá se escreve, não se pronunciam.
Há uma maneira de cortar com laços ou prisões indesejáveis que é a ausência, o partir, a decisão não é fácil porque ninguém é uma ilha...
Bjo
Mas podemos, até certo ponto, escolher os destinos para os quais viajamos...
ResponderEliminarE também podemos escolher com quem queremos partir....:)
ResponderEliminarE até quando e o que levamos na "valisa"... hoje estamos senhores de La Palice, catedráticos do óbvio, mas é por isso que os lugares-comuns são lugares-comuns. Estão sempre certos! eheheh. Bom resto de Dia da Mulher (dá ideia que os outros 364/465 são do homem...).
ResponderEliminar365 e não 465... lapso freudiano?
ResponderEliminarNão percebo nada de matemática....mas os meus dias graças a Deus são meus!! 365 ou 366, conforme os anos:))
ResponderEliminarBjo