sábado, 21 de maio de 2011

O caso Maddie


Sempre passei férias na praia da Luz, perto de Lagos. Pelo menos, desde há quarenta e tal anos. Conheci aquela estãncia de verão quando ainda era uma rua apenas com casas baixinhas de pescadores e umas raras casas de férias, algumas de famílias nobres, outras de ingleses reformados que escolhiam o nosso país para acabar as suas vidas num clima ameno.
Era uma praia muito pacata, mesmo no pino de Agosto, mas a pouco e pouco surgiu o primeiro mini-mercado que se transformou em supermercado e depois em hipermercado no espaço de vinte anos.
Quando fui para lá pela primeira vez, as compras tinham de ser feitas em Lagos, onde havia lojas e restaurantes. Na Luz só havia um barzito de madeira no meio da praia,o Paraíso, onde por vezes iamos tomar um martini ao fim da tarde. A primeira boutique, Capricho, com donos ingleses, foi um sucesso pois vendia jornais e pequenos objectos todos feitos em Inglaterra com aquele charme britânico que nós tanto apreciávamos.
A Luz era partilhada por portugueses e ingleses em harmonia, com alguma subserviência da parte dos empregados que serviam nos restaurantes ou nos supermercados, alguns preços proibitivos, mas com uma escolha de produtos que só fora do país se conseguiam arranjar: compotas, caris, conservas, carnes frias, fast food,take away, uma variedade enorme, que até custava a acreditar existisse numa zona balnear tão pequena.
A Luz era um pequeno paraíso, a nossa casa de férias um local feliz para os meus Pais que para lá fugiam muitas vezes ao fim de semana. Não tínhamos telefone nem TV. A viagem era horrível pela estrada antiga, mas ao chegar, abria-se o mar imenso na nossa frente e a palmeira da nossa Avó saudava-nos do alto da sua copa. Também havia a fortaleza, uma casa arruinada, com janelas acessíveis, onde os meus irmãos entraram uma vez numa acção digna de livro dos Cinco.
As rochas, onde passávamos grande parte do tempo, eram lisas e permitiam andarmos até ao Burgau a 5km da Luz, contemplando as pequenas baias, onde o mar transparente deixava entrever milhares de seixos e rochas de cores variegadas.
A igreja, monumento nacional, só tinha missa ao domingo, vindo um padre de fora celebrá-la. Agora já tem mais missas e está sempre aberta, vendo-se o lindo retábulo dourado de todo o largo.

Foi nesta terra pacata que Maddie desapareceu a 3 de Maio de 2007.
Não se sabe como.
Há mistério que se sente no ar quando se sobem as ruelas que vão dar ao resort Ocean Club. A criança volatilizou-se e quem conhece a Luz, como eu, tem dúvidas sobre a possibilidade de ter havido um rapto naquele sítio ermo, cheio de gente simpática, segurança total e uma beleza natural espectacular. As crianças costumavam brincar na praia até anoitecer e mesmo depois, sempre se viam casais a jantar e as crianças sozinhas na praia a correr , a andar de baloiço ou a chapinhar no mar.
Nunca se saberá o que aconteceu, penso eu, mas a investigação vai recomeçar, agora já sem a colaboração dos media que foram implacáveis em 2007. Ver os pais na TV fez-me reviver aqueles meses em que seguia o caso pelos jornais e internet avidamente, como se de um thriller se tratasse.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Não tem nada a ver com Arte

mas obriga-me a pensar e a cogitar sobre as controvérsias e paradoxos da vida e nos meios usados para atrair a atenção dos telespectadores.

Uma telenovela da TVI, que só vejo intermitentemente - não tenho paciência para os longos diálogos, más interpretações, cenas pseudo burlescas dum humor baixo e duvidoso, intervalos com anúncios intermináveis, enfim....nunca chego a ver nada seguido - inclui uma casa de passe, onde as raparigas são escravas dum chulo, interpretado pelo eterno galã piroso, obrigadas a obedecer e a fazer tudo o que vai contra a sua vontade e dignidade só para conseguir ganhar a vida. Na realidade, aquele chulo "viola" as suas empregadas todos os dias, vive do que elas angariam, sendo tudo, aparentemente, legal e quase recomendável.
A telenovela é transmitida no horário nobre e qualquer criançaou aolescente pode ver estas cenas muitissimo chocantes, quanto a mim, que já sou adulta. Felizmente, os meus netos vão para a cama as 8 e não tem TV em casa, acho que os Pais têm que ter muito cuidado com aquilo que é lixo puro, oferecido e ainda abençoado pela TVI, o canal "grande mestre do "crime mediático" em Portugal. É um canal perigoso, amoral, capaz do melhor e do pior. O programa Perdidos na Tribo é outro programa que me choca e que me recuso a apoiar depois de ter visto uns dez minutos absolutamente "nojentos". Sei que as pessoas fazem tudo por dinheiro, mas não é curial bombardear adolescentes e mesmo velhos, muitas vezes sós em casa, com imagens aberrantes de so called "famosos" com atitudes reprováveis em qualquer sociedade.

Por fim, temos uma personalidade com prestígio internacional apanhado num caso que não teria impacto se o arguido não fosse quem é. Foi apanhado, se tivesse viajado como queria para França, provavelmente ainda hoje estaria a decidir sobre a nossa dívida na reunião do Ecofin. Armadilhas que o império tece. Neste momento, um candidato a Presidente de França medita em Rikers, a pior prisão de NY, sobre o seu futuro que se apresenta negro.

A vida é cheia de paradoxos, talvez por isso aliciante. Mas será que este tipo de notícias e programas devem ser mostrados a toda a hora e a qualquer incauto que quer ver TV? E porque não mostrar as maravilhas que acontecem no mundo, em vez das misérias e atrocidades constantes?

Como proteger os jovens destas agressões quotidianas?

segunda-feira, 16 de maio de 2011

PINA - Maravilha em 3D



Fui ver "Pina" , o filme de Wim Wenders sobre o trabalho de Pina Bausch, coreógrafa alemã, que faleceu em 2009.
Tinha algumas reticências, pois não gosto muito de ver bailado no cinema ou na TV, já tinha ouvido dizer mal de alguns espectáculos que a coreógrafa realizou cá em Portugal, sentia algum receio de que o filme fosse um mero documentário pra-frentex, sem substância, esotérico ou para mentes intelectualoides.

Nada disso. Adorei. E pela primeira vez dei o devido valor as 3D. Não há dúvida que sem elas, este filme perderia 50% do impacto.

Ao ver este filme, diria que no princípio era a música. e o corpo...não o verbo. No dizer de Wenders, Pina não gostava de palavras e falava muito pouco com os seus alunos, pelo meio surgem frases que ela proferiu em dada altura a cada um dos bailarinos ou bailarinas durante anos. Mas, segundo eles, Pina exprimia-se pelo olhar, os seus olhos pareciam dizer tudo.

Transcrevo aqui as próprias palavras do realizador acerca da arte transmitida pela coreógrafa e sobre o significado do movimento:

MOVEMENT

Until now movement as such has never touched me.
I always regarded it as a given.
One just moves. Everything moves.
Only through Pina's Tanztheater have I learned to value
movements, gestures, attitudes, behaviour, body language,
and through her work learned to respect them.
And anew every time when, over the years I saw Pina's pieces, many times and again,
did I relearn, often like being struck by thunder,
that the simplest and most obvious is the most moving at all:
What treasure lies within our bodies, to be able to express itself without words,
and how many stories can be told without saying a single sentence.


Ao contemplar cenas coreografadas, no filme, senti uma leveza, uma sensação de liberdade total, a imagem do corpo como algo táctil, maleável , completamente desprovido de peso, capaz de se mover em todos os sentidos, gesticular, abraçar, empurrar, aguentar, suster, atirar, chapinhar e tudo o mais que com ele se queira fazer. Esta arte é um hino ao corpo, embora os bailarinos não sejam especialmente bonitos, nem escolhidos pela sua beleza física, talvez mais pela sua expressividade.

Mas para mim, ainda o melhor de tudo, é o soundtrack do filme. A música é absolutamente divinal do princípio ao fim, variando de estilos e terminando com uma balada de Coimbra, pela voz de Adriano Correia de Oliveira, que me fez estremecer de emoção.

Fica aqui o trailer: